Segredos de Antônio Peticov

Antônio Peticov tem muita história para contar. O tempo todo, ouvindo músicas, no meio de livros, desenhos e projetos. Seu ateliê é repleto de objetos, coleções de cubos, quebra cabeças, brinquedos e miudezas que dizem sempre algo a mais. Tudo tem um porquê, um motivo, uma razão. E ele conhece em detalhes cada elemento. Não é a toa que a sua obra evidencia essa pesquisa.

Em Segredos de Antônio Peticov, filme que produzimos no improviso, ele em um minuto conta algumas curiosidades.

E aqui escrevi mais sobre Antônio Peticov.

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O sujeito amor não cola

Não sei se início aqui uma narrativa ainda mais subjetiva.
E, por quê não?

Porque, se eu falar de amor, vão pensar que se trata do meu amor e não do amor.

Então, vou colocar ficção!
E, por quê não?

Porque não vai colar.

Recado para Dr Paulo

1 min, 2018, Leide Jacob

Há uns anos, para uma visita semanal, a home care enviou um médico novo para consultar minha mãe. Ele entrou no quarto dela, olhou para a cuidadora e fez todas as perguntas, se minha mãe estava bem, se ela tinha dores etc.

O olho da minha mãe ficou fixo na cuidadora, que logo perguntou se ela queria falar. Ela olhou imediatamente para o sim. Foram para a tabela.

Primeiro ela mandou “Bom dia, doutor”.

E depois esse recado aqui.

Não é linda?

Leitura documental de Cora Coralina

Cora Coralina – todas as vidas, 75 min, 2016, Renato Barbieri

Cora Coralina foi o pseudônimo criado por Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985) para assinar os seus escritos, já que Ana existiam várias. E é também o nome que Renato Barbieri (Araraquara – Memórias de uma cidade, 2013) escolheu para seu documentário a respeito deste ícone da cultural brasileira, uma escritora que teve uma vida repleta de realizações e que só veio a lançar seu primeiro livro com 75 anos de idade.

Inspirado no livro “Raízes de Aninha”, de Clóvis Brito e Rita Elisa Seda, o documentário de 75 minutos expõe o universo de Cora Coralina e suas intensas atuações na literatura, na ecologia e na sociedade, durante mais diversas fases de sua vida.

O diretor opta por dois eixos distintos da linguagem audiovisual.

O primeiro com um olhar poético, de larga amplitude, traz elementos que incitam a imaginação. Sem apresentar conceitos, mas sim a obra de Cora para o espectador sentir e pensar. Assim, de início, o filme tem esta vertente artística, com imagens que ressaltam a natureza, mostrando o imaginário de uma garota do interior.

O lúdico também compõe este segmento. Com a locução dos textos líricos de Cora, em poesia e prosa, a experiência se engrandece com descrições dos locais onde viveu. Os caminhos e suas percepções.

As atrizes Beth Goulart (Vidas em Jogo, novela, 2011), Zezé Motta (Pitanga, 2016), Walderez de Barros (Dores de amores, 2013), Tereza Seiblitz (High School Musical, 2010), Maju Souza (As duas Irenes, 2017) e Camila Márdila (prêmio de melhor atriz de filme internacional no Sundance Festival por sua atuação em Que horas ela volta?) se revezam no papel da autora. As vezes vestidas de preto e apenas recitando poemas. Em outros momentos, nas reconstituições de cenas, mostrando lembranças e fragmentos de histórias.

A percepção de que estamos diante de um filme, ou seja, a quebra do ritmo poético se dá no primeiro depoimento e, depois, em cada inserção de outros, já que cada um dos participantes (familiares, amigos e estudiosos) descrevem de maneira objetiva algum aspecto da vida ou da obra de Cora.

Apesar de ter publicado seu primeiro livro na fase idosa, ela inicia os seus escritos com 14 anos de idade, sendo posteriormente publicada em jornais e periódicos locais. Sua formação humanista era sólida, com grande atuação nas causas sociais.

E aí que se encontra o outro eixo apresentado por Barbieri, suas pontuações objetivas. Ele é restrito às definições e calcado no discurso, contrastando com o ritmo poético da obra de Cora, apesar de acrescentarem informações importantes.

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O único depoimento que destoa dos demais é o da própria Cora, em preto e branco. Ele, associado à sua obra, conferem lastro ao documentário e já são o bastante.

Aliás, força do filme está justamente aí.

O documentário foi exibido pela primeira vez no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) em agosto de 2015, rodou por diversos outros festivais e tem estreia comercial prevista para 14 de dezembro.

Seu trailer pode ser visto aqui.

A realidade e o sonho se embaralham

Belle de Jour, França, 100 min, 1967, Luis Buñuel

Se cinema é imaginação, A bela da tarde é o exemplo perfeito de como uma história pode naturalmente transitar entre a realidade e o sonho, dando vazão aos mais férteis desejos sexuais.

Baseado no romance “Belle de Jour“, de 1928, de Joseph Kessel, A bela da tarde (Belle de Jour, França/Itália – 1967), dirigido por Luis Buñuel, conta a história da burguesa Séverine Serizy (Catherine Deneuve, considerada a deusa do cinema francês, “Tout nous sépare”, 2017) que, motivada por suas fantasias, e insatisfeita com o casamento, passa a se prostituir no bordel da Madame Anaïs (Geneviève Page, “Don’t worry, be happy”, 2003), onde se depara com os mais diversos tipos de clientes e situações.

Com o pretexto do sonho, lembranças ou fantasias, o roteiro que Buñuel fez em parceria com Jean-Claude Carrière, autor de vários livros, entre eles o conceituado “A linguagem secreta do cinema”, foi inovador por abordar questões até hoje consideradas tabu sobre o universo feminino, dando palco aos desejos sexuais tão perversos quanto reprimidos.

E não é à toa que Buñuel explora o inconsciente. Considerado o pai do cinema surrealista, seu primeiro filme, “Um cão andaluz” (1929), produzido em parceria com Salvador Dalí e recheado de cenas dúbias e metafóricas, é um marco histórico para o cinema experimental.

A Bela da Tarde começa mostrando o casal Séverine e Pierre (Jean Sorel, Strange Birds, 2017), em uma carruagem, ao som dos guizos (sinos) presos aos animais, a caminho de sua residência, quando ela se imagina sendo violentada pelo cocheiro a pedido de seu marido.

As cenas remetem sempre a algo além, mais pesado, mas não se chega a este ápice. São indicações que deixam claro o que acontece ou se imagina. E isso inclui violência, estupro, sadismo e até abuso de menor.

O real e o imaginário no mundo de Séverine se fundem, entre lembranças em flashbacks e fantasias sexuais.

Destaque para a edição de som de René Longuet (L`agression, 1975), que se utiliza de elementos sonoros, como os guizos na carruagem em movimento, como ícones, para se associar ao pensamento da Severine, que não são poucos.

Ao final, na sala com o marido, que está doente, imóvel em uma cadeira de rodas, Séverine escuta os sinos e observa na janela a carruagem que vem pela estrada. E, como que voltando para a realidade ou saindo dela, o marido se levanta e comenta que vai tirar 15 dias de férias para eles viajarem para as montanhas.

Esta confusão entre o real e o imaginário permeia todo o filme, tornando-o ele próprio um elemento a ser questionado. O que é real e o que é imaginação, afinal, se, ao fim, a transição se impõe, confirmando a tênue margem entre estes elementos? Teria sido tudo fruto da imaginação de Séverine?

Nestas fantasias, Séverine se coloca de forma submissa, mas a grande novidade é que ela é o sujeito pensante e não reduzida ao objeto pensado. As fantasias são frutos de sua imaginação e isso já faz uma baita diferença.

A bela da tarde consegue abalar o papel estabelecido para a mulher na sociedade burguesa, mesmo que tudo isso esteja apenas no campo dos sonhos ou imaginação. O cinema tem esta magia.

No Brasil, entrará em cartaz a cópia restaurada do filme, com tecnologia de imagem em 4K, exibida no último Festival de Cannes, em comemoração aos 50 anos de seu lançamento.

Imperdível.

Um filme sobre memória e seus abismos

Yvone Kane, Por/Moçambique, 117 min, 2014, Margarida Cardoso

Em tom ficcional, o filme Yvone Kane, dirigido por Margarida Cardoso (“Sob o olhar silencioso”, 2012), expõe o relacionamento de mãe e filha, pautado por uma narrativa de constantes perdas e buscas, em meio a questões históricas, como colonialismo e guerras civis.

Rita (Beatriz Batarda, “A Costa dos murmúrios”, de Margarida Cardoso), após a morte trágica de sua filha, volta à África para encontrar a mãe, Sara (Irene Ravache, “Passione”), que, quando jovem, foi guerrilheira e ativista política, junto com a amiga Yvone Kane (Mina Andala, “Peregrinação”), assassinada em condições nunca esclarecidas.

Durante sua estada na África, Rita está à procura de respostas e questiona a mãe sobre a distância que ela faz questão de ter dos filhos. “Você mandou os filhos para Londres e nunca mais os buscou”.

Sara é fria e a recebe no aeroporto com um abraço seco. Ela é médica e atende a população local em um convento de freiras, onde é vista como uma pessoa arrogante.

Filmado em Portugal e Moçambique, Yvone Kane traz mulheres como personagens principais, dando foco em suas relações. Como pano de fundo, a política, a família e a violência, com destaque para um estupro no convento das freiras, onde um dos envolvidos é o filho adotivo de Sara, Jaime (Herman Jeusse).

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Janelas, vidros e imagens refletidas remetem a momentos introspectivos, recheados de ambiguidades. As lacunas das relações familiares deixam constante mistério, mas também fornece munição e elementos para buscas.

Rita descobre que sua mãe está doente. Porém, com interesse em desvendar sobre a morte de Yvone Kane, viaja e não está presente quando ela falece. As perdas importantes de sua vida marcam o início e o fim. O elo é o resgate da memória, seus abismos e angústias.

Face a densidade psicológica dos demais personagens, a verdadeira história sobre a morte de Yvone Kane, homônima ao filme, fica em segundo plano.

Yvone Kane já está em cartaz e o seu trailer pode ser visto aqui.