Noite de Lua cheia

37 min, 2019, Leide Jacob

Minha mãe, Leide Moreira, viveu por 14 anos somente com o movimento ocular, desde 2005, quando perdeu todos os outros movimentos por conta da ELA, Esclerose Lateral Amiotrófica, até 2018, quando infelizmente veio a falecer.

Quando lhe perguntavam, ela olhava para direita ou esquerda para indicar “não” ou “sim”, conforme combinação prévia.

Desta forma, ela se comunicava, respondendo às perguntas com os olhos. Era totalmente dependente de suas cuidadoras, para tudo. Alimentação, higiene, piscar. Para se comunicar, tinha que acontecer a pergunta.

Em 2005, quando lhe apresentei a tabela como uma possibilidade, para a gente testar, ela imediatamente “ditou” duas poesias. Uma e depois a outra, na sequencia.

Incrível, mas elas ja existiam em sua cabeça. Estavam prontas porque tudo aconteceu de “bate-pronto”.

E ela continuou. Foram muitos cadernos. Ela falava muito, fazia muitas poesias. Lançamos três livros.


Senti que seria importante documentar esse processo. Comprei uma câmera e pedi para que as suas cuidadoras e auxiliares de enfermagem (ela respirava por aparelhos e necessitava de cuidados especiais) filmassem todo momento em que ela fosse se comunicar.

E elas, maravilhosas e pró-ativas, documentaram o que minha mãe tinha a dizer. Momentos únicos, onde, na intimidade do quarto, com muito amor, nasceram poesias.

Entre elas, apresento aqui, NOITE DE LUA CHEIA, transcrita na noite de 30 de agosto de 2007 por Ivania Soares (auxilio na tabela), Mônica Alves (anotações) e Francineide Oliveira (filmagem).

Ela está completa, desde o seu início até o final, todo processo foi filmado, inclusive as tensões, erros e brincadeiras, 37 minutos de espontaneidade à flor da pele e inúmeras pérolas.


Uma delas é a participação das meninas. Especiais e comprometidas, em um dado momento, por volta dos nove minutos, o telefone toca insistentemente, e elas não param a transcrição, continuam na poesia, a prioridade é a poeta e o que ela tem a dizer. Até me emociono quando penso nisso, na grandiosidade deste ato. É maravilhoso.

Essa é a explicação para tantas poesias – quase 300 – transcritas desta forma: o talento dela, evidentemente, e o comprometimento e profissionalismo da equipe.

Eu, só tenho a agradecer. Eternamente. Produzir NOITE DE LUA CHEIA e disponibilizar este conteúdo é o mínimo que posso fazer para retribuir a tanto amor.

O filme inteiro está aqui.

Leide Jacob
São Paulo, dezembro de 2019

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HIGHWAY 1, a brother & sister trip

7’32”, 2019, Leide Jacob

Highway 1 é a documentação de uma viagem que fiz com Cesar, meu irmão, amigo e parceiro artístico.

Já criamos várias músicas e, quando adolescentes, participamos de festivais de MPB. Ele é meu parceiro no roteiro dos filmes Minha Poesia e Pagar 4 nunca mai$. E, sempre que possível, estamos juntos.

Em 2018, viajamos à Los Angeles, Califórnia, para visitar nosso irmão Cristiano, sobrinhos e cunhada.

Ficamos uns dias em São Francisco e, depois, fomos de carro para Los Angeles pela estrada litorânea Highway One. Decidimos documentar esse trecho para, além de curtir aqueles momentos, registrar nossa primeira experiência juntos e sozinhos nos EUA.

Filmamos essa passagem pela Highway One em 13 de março de 2018.

Quando organizamos a viagem, não pesquisamos sobre as condições da estrada. Parênteses: o caminho estava fechado desde fevereiro de 2017 por conta de deslizamentos de terra e pedras.

Editei as imagens e, quase um ano depois, em 3 de fevereiro de 2019, assistimos e revivemos aqueles momentos com a gravação de nosso diálogo, sem pauta alguma, no improviso, em primeira mão.

E, ali, naquele momento, surgiram “metadiscussões”sobre a narrativa a ser construída, afinal, já viajamos ou ainda estamos viajando?

Ao som de Texas Bound, do bluesman Nuno Mindelis, e de Life’s Road, de Leide Moreira e Rafael Toledo, nosso papo descontraído e irônico, carregou toda a “picuinha” e intimidade que nossa relação nos permite.

Na pós-produção, destaco a edição de som de João Godoy, que restaurou o ambiente interno do carro, abafando os sons externos, como para-brisas, outros veículos, chuva, etc. E o retoque das cores feito por Henrique Reganatti, com a pigmentação puxando para o psicodelismo, deu o tom ideal para uma viagem pautada em questionamentos e provocações entre meu irmão e eu.

Nosso filme explicita, não apenas a elaboração do documentário em seu início e fim, mas também traz, em seu recheio, o amor que envolve nossa relação de parceria, que sempre nos leva a produzir algo juntos.

Tudo muito sincero. Ou não, como no cinema.

O filme circula por festivais e o seu trailer pode ser visto aqui.

Leide Jacob

 

Segredos de Antônio Peticov

Antônio Peticov tem muita história para contar. O tempo todo, ouvindo músicas, no meio de livros, desenhos e projetos. Seu ateliê é repleto de objetos, coleções de cubos, quebra cabeças, brinquedos e miudezas que dizem sempre algo a mais. Tudo tem um porquê, um motivo, uma razão. E ele conhece em detalhes cada elemento. Não é a toa que a sua obra evidencia essa pesquisa.

Em Segredos de Antônio Peticov, filme que produzimos no improviso, ele em um minuto conta algumas curiosidades.

E aqui escrevi mais sobre Antônio Peticov.

Recado para Dr Paulo

1 min, 2018, Leide Jacob

Há uns anos, para uma visita semanal, a home care enviou um médico novo para consultar minha mãe. Ele entrou no quarto dela, olhou para a cuidadora e fez todas as perguntas, se minha mãe estava bem, se ela tinha dores etc.

O olho da minha mãe ficou fixo na cuidadora, que logo perguntou se ela queria falar. Ela olhou imediatamente para o sim. Foram para a tabela.

Primeiro ela mandou “Bom dia, doutor”.

E depois esse recado aqui.

Não é linda?

Leitura documental de Cora Coralina

Cora Coralina – todas as vidas, 75 min, 2016, Renato Barbieri

Cora Coralina foi o pseudônimo criado por Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985) para assinar os seus escritos, já que Ana existiam várias. E é também o nome que Renato Barbieri (Araraquara – Memórias de uma cidade, 2013) escolheu para seu documentário a respeito deste ícone da cultural brasileira, uma escritora que teve uma vida repleta de realizações e que só veio a lançar seu primeiro livro com 75 anos de idade.

Inspirado no livro “Raízes de Aninha”, de Clóvis Brito e Rita Elisa Seda, o documentário de 75 minutos expõe o universo de Cora Coralina e suas intensas atuações na literatura, na ecologia e na sociedade, durante mais diversas fases de sua vida.

O diretor opta por dois eixos distintos da linguagem audiovisual.

O primeiro com um olhar poético, de larga amplitude, traz elementos que incitam a imaginação. Sem apresentar conceitos, mas sim a obra de Cora para o espectador sentir e pensar. Assim, de início, o filme tem esta vertente artística, com imagens que ressaltam a natureza, mostrando o imaginário de uma garota do interior.

O lúdico também compõe este segmento. Com a locução dos textos líricos de Cora, em poesia e prosa, a experiência se engrandece com descrições dos locais onde viveu. Os caminhos e suas percepções.

As atrizes Beth Goulart (Vidas em Jogo, novela, 2011), Zezé Motta (Pitanga, 2016), Walderez de Barros (Dores de amores, 2013), Tereza Seiblitz (High School Musical, 2010), Maju Souza (As duas Irenes, 2017) e Camila Márdila (prêmio de melhor atriz de filme internacional no Sundance Festival por sua atuação em Que horas ela volta?) se revezam no papel da autora. As vezes vestidas de preto e apenas recitando poemas. Em outros momentos, nas reconstituições de cenas, mostrando lembranças e fragmentos de histórias.

A percepção de que estamos diante de um filme, ou seja, a quebra do ritmo poético se dá no primeiro depoimento e, depois, em cada inserção de outros, já que cada um dos participantes (familiares, amigos e estudiosos) descrevem de maneira objetiva algum aspecto da vida ou da obra de Cora.

Apesar de ter publicado seu primeiro livro na fase idosa, ela inicia os seus escritos com 14 anos de idade, sendo posteriormente publicada em jornais e periódicos locais. Sua formação humanista era sólida, com grande atuação nas causas sociais.

E aí que se encontra o outro eixo apresentado por Barbieri, suas pontuações objetivas. Ele é restrito às definições e calcado no discurso, contrastando com o ritmo poético da obra de Cora, apesar de acrescentarem informações importantes.

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O único depoimento que destoa dos demais é o da própria Cora, em preto e branco. Ele, associado à sua obra, conferem lastro ao documentário e já são o bastante.

Aliás, força do filme está justamente aí.

O documentário foi exibido pela primeira vez no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) em agosto de 2015, rodou por diversos outros festivais e tem estreia comercial prevista para 14 de dezembro.

Seu trailer pode ser visto aqui.

A realidade e o sonho se embaralham

Belle de Jour, França, 100 min, 1967, Luis Buñuel

Se cinema é imaginação, A bela da tarde é o exemplo perfeito de como uma história pode naturalmente transitar entre a realidade e o sonho, dando vazão aos mais férteis desejos sexuais.

Baseado no romance “Belle de Jour“, de 1928, de Joseph Kessel, A bela da tarde (Belle de Jour, França/Itália – 1967), dirigido por Luis Buñuel, conta a história da burguesa Séverine Serizy (Catherine Deneuve, considerada a deusa do cinema francês, “Tout nous sépare”, 2017) que, motivada por suas fantasias, e insatisfeita com o casamento, passa a se prostituir no bordel da Madame Anaïs (Geneviève Page, “Don’t worry, be happy”, 2003), onde se depara com os mais diversos tipos de clientes e situações.

Com o pretexto do sonho, lembranças ou fantasias, o roteiro que Buñuel fez em parceria com Jean-Claude Carrière, autor de vários livros, entre eles o conceituado “A linguagem secreta do cinema”, foi inovador por abordar questões até hoje consideradas tabu sobre o universo feminino, dando palco aos desejos sexuais tão perversos quanto reprimidos.

E não é à toa que Buñuel explora o inconsciente. Considerado o pai do cinema surrealista, seu primeiro filme, “Um cão andaluz” (1929), produzido em parceria com Salvador Dalí e recheado de cenas dúbias e metafóricas, é um marco histórico para o cinema experimental.

A Bela da Tarde começa mostrando o casal Séverine e Pierre (Jean Sorel, Strange Birds, 2017), em uma carruagem, ao som dos guizos (sinos) presos aos animais, a caminho de sua residência, quando ela se imagina sendo violentada pelo cocheiro a pedido de seu marido.

As cenas remetem sempre a algo além, mais pesado, mas não se chega a este ápice. São indicações que deixam claro o que acontece ou se imagina. E isso inclui violência, estupro, sadismo e até abuso de menor.

O real e o imaginário no mundo de Séverine se fundem, entre lembranças em flashbacks e fantasias sexuais.

Destaque para a edição de som de René Longuet (L`agression, 1975), que se utiliza de elementos sonoros, como os guizos na carruagem em movimento, como ícones, para se associar ao pensamento da Severine, que não são poucos.

Ao final, na sala com o marido, que está doente, imóvel em uma cadeira de rodas, Séverine escuta os sinos e observa na janela a carruagem que vem pela estrada. E, como que voltando para a realidade ou saindo dela, o marido se levanta e comenta que vai tirar 15 dias de férias para eles viajarem para as montanhas.

Esta confusão entre o real e o imaginário permeia todo o filme, tornando-o ele próprio um elemento a ser questionado. O que é real e o que é imaginação, afinal, se, ao fim, a transição se impõe, confirmando a tênue margem entre estes elementos? Teria sido tudo fruto da imaginação de Séverine?

Nestas fantasias, Séverine se coloca de forma submissa, mas a grande novidade é que ela é o sujeito pensante e não reduzida ao objeto pensado. As fantasias são frutos de sua imaginação e isso já faz uma baita diferença.

A bela da tarde consegue abalar o papel estabelecido para a mulher na sociedade burguesa, mesmo que tudo isso esteja apenas no campo dos sonhos ou imaginação. O cinema tem esta magia.

No Brasil, entrará em cartaz a cópia restaurada do filme, com tecnologia de imagem em 4K, exibida no último Festival de Cannes, em comemoração aos 50 anos de seu lançamento.

Imperdível.

Um filme sobre memória e seus abismos

Yvone Kane, Por/Moçambique, 117 min, 2014, Margarida Cardoso

Em tom ficcional, o filme Yvone Kane, dirigido por Margarida Cardoso (“Sob o olhar silencioso”, 2012), expõe o relacionamento de mãe e filha, pautado por uma narrativa de constantes perdas e buscas, em meio a questões históricas, como colonialismo e guerras civis.

Rita (Beatriz Batarda, “A Costa dos murmúrios”, de Margarida Cardoso), após a morte trágica de sua filha, volta à África para encontrar a mãe, Sara (Irene Ravache, “Passione”), que, quando jovem, foi guerrilheira e ativista política, junto com a amiga Yvone Kane (Mina Andala, “Peregrinação”), assassinada em condições nunca esclarecidas.

Durante sua estada na África, Rita está à procura de respostas e questiona a mãe sobre a distância que ela faz questão de ter dos filhos. “Você mandou os filhos para Londres e nunca mais os buscou”.

Sara é fria e a recebe no aeroporto com um abraço seco. Ela é médica e atende a população local em um convento de freiras, onde é vista como uma pessoa arrogante.

Filmado em Portugal e Moçambique, Yvone Kane traz mulheres como personagens principais, dando foco em suas relações. Como pano de fundo, a política, a família e a violência, com destaque para um estupro no convento das freiras, onde um dos envolvidos é o filho adotivo de Sara, Jaime (Herman Jeusse).

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Janelas, vidros e imagens refletidas remetem a momentos introspectivos, recheados de ambiguidades. As lacunas das relações familiares deixam constante mistério, mas também fornece munição e elementos para buscas.

Rita descobre que sua mãe está doente. Porém, com interesse em desvendar sobre a morte de Yvone Kane, viaja e não está presente quando ela falece. As perdas importantes de sua vida marcam o início e o fim. O elo é o resgate da memória, seus abismos e angústias.

Face a densidade psicológica dos demais personagens, a verdadeira história sobre a morte de Yvone Kane, homônima ao filme, fica em segundo plano.

Yvone Kane já está em cartaz e o seu trailer pode ser visto aqui.

Guerra ou Paz

War or Peace, Irã, 3min40s, 2016, dir. Kayvan Sarvari

Pensei muito no Irã nestes últimos dias. Aliás, o mundo ficou chocado com o terremoto de magnitude 7,3, que deixou mais de 400 mortos e 6.700 feridos na fronteira entre o Irã e o Iraque. Esse, assim como tantos outros desastres vindo da natureza, são acontecimentos incontroláveis, ficamos à mercê.

Mas, comento aqui sobre coisas mais “controláveis”, nossas atitudes. E, para começar, um recorte na instituição “família”. Os pais sempre pensam que o “mundo-cão” tá la fora, mas esquecem que a base da edução está no modelo que eles se apresentam aos filhos no dia-a-dia.

Tudo isso para falar de “War or Peace”, do colega iraniano Kayvan Sarvari, um curta de quase 4 minutos, exibido no XVII International Festival of Red Cross and Health Films, que aconteceu em outubro em Varna, Bulgária.

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filmagens de “War or Peace”

Kayvan mostra, através do olhar de uma criança que brinca com jogo de letras, a rotina de um casal, que, em meio de brigas e trocas de carinhos, são expressadas pelas palavras ora “war” ora “peace”. Ludicamente, o garoto define o ambiente familiar.

E isso é realmente o que acontece na realidade. As atitudes dos pais são observadas pelos filhos, que reagem a elas. A guerra e a paz está no âmbito familiar, dentro de casa, na maneira como estes integrantes se relacionam.

Porém, é quase uma unanimidade acreditar que somente o mundo lá fora é perverso. Os pais “protegem” seus filhos, acreditando que o núcleo familiar é puro e livre de toda maldade. Estes pais menosprezam seus filhos, pois pensam que eles não observam as suas atitudes. Ledo engano. Os filhos ficam atentos, refletem e tem sim opinião a respeito dos pais. Positivas e negativas.

Claro que, ao sair de casa, as influências aumentam, nas escolas, no trabalho e em qualquer outro ambiente social. Mas, é o núcleo familiar responsável pelo início da construção do caráter, personalidade, conceitos e preconceitos.

“War or peace” aborda de maneira inteligente a importância da família. É o primeiro filme de Kayvan e está circulando o mundo pelos festivais.

Seu trailer pode ser visto aqui.

A passagem

Estava à toa, ocupada comigo mesma.

Um pássaro preto, que voava alto, caiu. Ficou piando forte. Me assustei com barulho do choque e com ele ali, desesperado no chão, clamando por ajuda.

Sem saber o que fazer, intuitivamente o peguei. Fiz carinho e conversei, mas em segundos seus olhos foram se fechando. Faleceu. Minha lágrima molhou sua asa. Me senti impotente e triste.

Acolhê-lo infelizmente não o livrou da morte.

Mas me deixou em paz, por ter lhe dado conforto naquele momento de passagem.

Festival de Cinema da Cruz Vermelha mostra um mundo cheio de esperança

Depois de alguns dias fora e sem postar aqui, chego para compartilhar minha experiência ao participar do XVII International Festival of Red Cross and Health Films, realizado em Varna, Bulgária, entre os dias 12 e 15 de outubro. Sem dúvida, rica e inesquecível vivência.

Com MINHA POESIA, meu primeiro curta metragem, ainda inédito no Brasil, ganhei o prêmio de melhor diretora de documentários do Festival. Ele foi selecionado, juntamente com outros 129 curtas, médias e longas, por uma curadoria que avaliou um total de 1.890 filmes, oriundos de 107 países.

O International Festival of Red Cross and Health da Bulgaria é o único de toda a Cruz Vermelha, organização presente em vários países que tem como princípio trabalhar por um mundo melhor. Mas o espírito humanitário extrapola a tela. Ou, ao contrário, penetra nela.

Eu e Marcelo, meu marido, chegamos ao aeroporto de Varna, Bulgária, às duas e meia da manhã, depois de uma parada de um dia em Londres para descansar de um voo direto do Brasil. Estava lá uma equipe da Red Cross Film Festival nos esperando para nos levar ao complexo de Kamchia, um resort à beira do Mar Negro, preparado para, não apenas exibir grande parte dos filmes selecionados no festival, mas também hospedar cineastas, críticos, jornalistas, artistas, produtores, intelectuais e pessoas da Red Cross que vieram de várias partes do mundo.

Com legendas em inglês e búlgaro, MINHA POESIA foi exibido duas vezes. Primeiro no principal local do evento, com auditório lotado, em uma sessão calorosa. No final, muitas pessoas emocionadas vieram conversar comigo e compartilhar seus sentimentos. Foi incrível.

No mesmo dia, à tarde, na Faculdade de Medicina de Varna, com a sala cheia de estudantes, MINHA POESIA foi exibido seguido de um bate-papo muito produtivo pela troca de experiências. Aliás, não somente a interação com os alunos, mas, durante todo o Festival, inúmeros aprendizados.

Além das personalidades locais e toda equipe da Red Cross, tive contato com colegas cineastas de Cyprus (Bejay Browne), Suécia (Begônia Randhav) e Irã (Kayvan Sarvari), Romênia (Iulian-Andrei Bobirnea), Turquia (Armagan Pekkaya) e da própria Bulgaria (Iva Martinova e Milena Kaneva). E, como todos ficam reunidos em caráter intensivo, em um local único (diga-se, de passagem, maravilhoso, com natureza exuberante e à beira mar), realizando as atividades conjuntamente, inclusive as refeições, o resultado é uma vivência rica, fazendo com que todos, não apenas se conheçam, mas se tornem amigos. Foram quatro dias de uma agenda intensa.

Eu já imaginava encontrar um ambiente acolhedor, mas a minha expectativa foi realmente superada.

Na volta para o aeroporto, o motorista da Red Cross fez questão de mudar o caminho e nos mostrar o mirante, com a linda vista panorâmica de Varna. Não, ele não precisava fazer isso, nem pedimos, mas o fez porque eles se preocupam em fazer o melhor.

E, chegando lá, o seu telefone toca. Ele não nos disse, mas percebemos que era alguém da organização querendo saber se estávamos bem, se havíamos chegado no horário correto para pegar o voo. E ele nem comentou com o seu superior que havia dado uma voltinha a mais com a gente. Nem precisava.

O mundo é grande. Apesar de Trumps, Temer e toda sua corja, existem iniciativas humanitárias, como a Cruz Vermelha que salva vidas e, através de seu Festival de cinema, nos mostra um mundo mais humano e cheio de esperança.

Sim, existe amor no mundo.

The love is here!

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Um filme sobre pessoas

El Amparo, Venezuela/Colômbia, 99 min, 2016, dir. Rober Calzadilla

Muito se discute a respeito do que é possível ser representado. Quando se trata de violência, alguns diretores escancaram o sangue e fazem questão de ressaltar o horror. Outros já preferem se utilizar de cenas “não violentas” para contar suas histórias. Este é o caso de El Amparo, primeiro longa dirigido por Rober Calzadilla.

O filme é uma ficção inspirada no massacre de Amparo, ocorrido em 1988, na fronteira da Venezuela com a Colômbia, onde um grupo de pescadores foram mortos pelo exército sob o pretexto de serem guerrilheiros e estarem a caminho das refinarias de petróleo para explodi-las. Dois destes pescadores, Pinilla (Vicente Quintero) e Chumba (Giovanni García), conseguiram escapar nadando pelos afluentes do rio Arauca, mas sofreram perseguições do governo e lutaram para provar que não eram guerrilheiros.

Para mostrar o modo de vida da comunidade ribeirinha, seus costumes, o diretor de fotografia Michell Rivas, neste, que é também o seu primeiro longa, dá ênfase às pessoas e suas relações familiares. As expressões em close mostram o que sentem, o sofrimento, tristeza, ansiedade e, muitas vezes, medo.

É uma história com viés político, que expõe a resistência de um povo formado por pescadores frente às pressões de políticos, promotores e pessoas economicamente influentes interessadas em legitimar o massacre.

O enfoque é social, humano e não há preocupação com o aparato técnico.

A lâmpada da delegacia está queimada e a cena acontece no breu por uma estética documental, onde o conteúdo se sobressai à forma e nos mostra um mundo real, aquele que vivemos, sem maquiagem.

Nesta vertente, explicita-se também muito a respeito do papel da imprensa partidária, que só divulga a versão oficial dos acontecimentos.

As interpretações de Vicente Quintero (estreante em longa) e Giovanni García (A família, 2017) merecem destaque. Eles passam grande parte do filme presos em uma cela, em um espaço físico limitado, e conseguem entreter o espectador com suas intensas atuações.

El Amparo não mostra o massacre ou qualquer corpo ensanguentado. Ou seja, o mais importante do filme não é explicitado em imagens, é uma elipse, uma ausência. E, apesar de um dos sobreviventes estar sempre reclamando de dor nas pernas, também não se mostra o machucado.

Vencedor dos prêmios de Melhor Filme e Melhor Roteiro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e do Prêmio do Público no Festival de Biarritz, El Amparo prova que para emocionar o espectador não é necessário mostrar sangue, mas sim pessoas em suas lutas sinceras e legítimas.

Estreia prevista para o dia 12/10. E seu trailer pode ser visto aqui.

Filme com componentes autobiográficos

Arnaud fait son 2o film, França, 80 min, 2015, dir. Arnaud Viard

Susan Sontag (1933 – 2004), escritora cineasta e feminista norte-americana, na célebre entrevista que deu para a revista Rolling Stones, afirmou que é difícil escrever sobre o amor porque invariavelmente as pessoas confundem o personagem com o autor, acreditando ser o primeiro a projeção de seu criador. Ou seja, o autor está sempre falando de si próprio através de seus personagens. Amor, Paris, Cinema (versão abrasileirada de Arnaud fait son 2o film) não apenas ressalta a confusão personagem-criador, como a escancara e brinca com os mais engraçados acontecimentos que esta situação pode apresentar.

Arnaud Viard (Grandes Amigos, 2012), que recentemente atuou no primeiro longa de Eleanor Coppola (Paris pode esperar, 2016), dirige e protagoniza o filme, seu segundo longa-metragem.

O filme começa otimista, com Arnaud no banheiro, sentado no vaso sanitário, dizendo “Tudo está difícil, mas depois tudo se resolve”. Esta é apenas a primeira de uma avalanche de situações ilustradas por metáforas.

Sim, ele está certo. Tudo no final se resolve, assim como – metaforicamente – Amor, Paris, Cinema foi concebido. Um filme sobre as dificuldades de um diretor de cinema em realizar o seu segundo longa-metragem, que, em suas palavras, “é uma comédia sobre sexo e cinema, com a história de um cara broxa, que não consegue engravidar sua esposa“.

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Mas Arnaud diz para o seu produtor não se tratar de um projeto autobiográfico e precisa convencê-lo de que o longa será um sucesso. Num primeiro momento – depois de ler o roteiro e negar o projeto, ao se despedir -, o produtor ironicamente lhe deseja melhoras quanto “aquele problema”, referindo-se à sua impotência.

Situações engraçadas permeiam as dificuldades. Ele recorre à igreja, psicólogo e empréstimos em banco. Para se sustentar, começa a dar aulas para um grupo de atores, onde a ideia do meta-filme – do cinema falando dele mesmo – é explorada. Faz citações de seus próprios trabalhos, como a série para TV Que Felicidade (Que du bonheur, 2008) que participou e lhe deixou conhecido. E também faz referências a autores consagrados, como François Truffaut (1932 – 1984) e Alfred Hitchcock (1899 – 1980).

Frases capitulares são utilizadas como recurso narrativo, avançando com leveza a história tão recheada de comparações, onde o escrever – em uma cena onde ele se debruça no computador – vira um grande concerto de piano.

Com a música Lança Perfume – de Rita Lee -, o final traz sequências paralelas, mostrando que realmente no final tudo se resolve. E nos deixa a certeza de que o filme é autobiográfico. Pelo menos, em parte.

Amor, Paris, Cinema garante boas risadas e mostra que o cinema possibilita isso: brincar com a realidade. Está aí sua riqueza.

Trailer aqui.

O melhor e o pior da sociedade

Glory, Bulgária/Grécia, 101 min, 2016, dir. Kristina Grozeva, Petar Valchanov

Com destaque para o relógio e todo simbolismo que ele representa, Glory faz uma caricatura da sociedade, com a polarização exacerbada do bom e mau.

Nesta segunda experiência, os diretores Kristina Grozeva e Petar Valchanov escalaram os atores Stefan Denolyubov (no papel de Tzanko Petrov, o protagonista) e Margita Gosheva (como Julia Staykova, a antagonista), que também atuaram em “A Lição” (2014), primeiro longa da parceria.

O entrosamento da equipe resultou em uma mise en scène articulada, com atores bem à vontade. Os planos, do tipo “câmera na mão”, em um estilo documental, aderem à atualidade, deixando o filme ainda mais próximo à realidade. Mas o Glory vai além da crônica. Há um exagero proposital nas situações, deixando-as cômicas, inusitadas.

Tzanko é um trabalhador ferroviário e, durante sua rotineira inspeção nos trilhos, encontra um saco de dinheiro e o entrega à polícia. A sua atitude honesta é motivo de chacota, tanto de seus conhecidos, quanto das autoridades políticas, que também o consideram um tolo. Fator potencializado por ser gago e ter dificuldades em se comunicar verbalmente.

Julia é assessora de comunicação do Ministério dos transportes e se utiliza do fato para divulgar o ministro Kanchev (Ivan Savov, que também atuou em “A Lição”, em 2014), realizando um evento para homenagear Tzanko por sua nobre atitude. Arrogante e falsa, ela retira o relógio do braço dele, uma relíquia de família, e lhe entrega o prêmio: um relógio digital, lhe deixando com a marca da ausência do objeto afetivo.

No encontro com o ministro, ele faz denúncias de roubos de combustíveis, mas é ignorado. Sozinho e sem apoio, a busca pelo relógio antigo é árdua e difícil.

Júlia, por sua vez, quer engravidar e passa por um tratamento com injeções em horários específicos. Este recorte humaniza a personagem, contrastando com sua falta de caráter.

O humor se faz presente com uma coleção de sequencias hilárias. Seja nas perseguições do marido de Júlia para lhe aplicar os remédios, ou nas trocas de roupa de Tzanko com os funcionários do Ministério do Transporte, já que ele precisava estar “apresentável” para contracenar com o ministro, a narrativa está calcada em cenas onde os personagens passam por situações, no mínimo, constrangedoras.

Destaque para a composição sonora na residência de Tzanko (edição de som de Ivan Andreev), um ambiente tão rústico, onde as moscas não aparecem, mas se fazem presentes.

Com ironia e sarcasmo, Glory escancara situações de corrupção envolvendo a administração pública na Bulgária. Não faz apenas uma caricatura daquela sociedade, nos mostra também que o estilo “tirar vantagem em tudo” não é exclusivamente brasileiro.

Glory tem estreia prevista para 14 de setembro e o seu trailer pode ser visto aqui.

Até dia 20 na Caixa Belas Artes

Escrava fugitiva na beira de um riacho com contrações ao som de palmas que se intensificam acompanhando sua respiração. Tudo orgânico, com ápice no nascimento daquele que viria a ser o Zumbi dos Palmares.

Esta é uma das cenas de parto mais linda que vi no cinema. Está no filme “Quilombo”, de Cacá Diegues, de 1984, que conta com direção musical de Gilberto Gil.

Precisa dizer mais?

Sim, o que interessa: corra para o Caixa Belas Artes porque até o dia 20 está rolando a “Mostra Cacá Diegues“, com exibição de todos os filmes deste incrível cineasta.

Mais informações aqui.

“Na Mira do Atirador” mostra os EUA dominados

EUA, 90 min, 2016, dir. Doug Liman

Sob o ponto de vista estadunidense, mas recheado de questionamentos, “Na Mira do Atirador” (“The Wall”), dirigido por Doug Liman (Sr. & Sra. Smith, 2005), é um filme de guerra, onde o inimigo não é visto. Ele se passa em um campo de batalha no Iraque, em 2007, quando o presidente dos EUA na época, George W. Bush, havia declarado ”que a vitória estava próxima”.

Os soldados norte-americanos Shane Matthews (John Cena: Pai em Dose Dupla, 2015) e Allan Isaac (Aaron Taylor-Johson: Animais Noturnos, 2016) estão encurralados, observados por um atirador iraquiano que intercepta a comunicação e tem controle total da situação. Não aparece, mas sabe de tudo. Vez ou outra, o espectador assume o ponto de vista do atirador, com a câmera focada na mira de uma arma, quando é possível ouvir a respiração e, muitas vezes, o riso irônico dele.

Pelo rádio, o iraquiano se comunica com o soldado Isaac, se fazendo passar por um aliado estadunidense. Apesar de logo ser identificado como inimigo pelo sotaque, o atirador insiste na comunicação como forma de intimidação e chantagem.

Nos diálogos, sequências de generalizações e senso-comum. O atirador se diz civil, mas está ali, na guerra. Revela que as ruínas onde o soldado do EUA está era uma escola e que, antes de se tornar um combatente, ele era professor em Bagdá. Inteligente e culto, faz referências ao “Coração Delator”, de Edgar Allan Poe, texto que aborda a loucura de um homem obsessivo pelo olho de um velho.

O soldado norte-americano diz “nós treinamos vocês”, cita Shakespeare e é zombado pelo iraquiano, que ressalta o repertório limitado e padronizado da cultura dos EUA.

Em outro diálogo, o atirador questiona: “se a guerra acabou, o que vocês ainda estão fazendo aqui?” Sem resposta, emenda “a guerra não acabou!”.

Com poucos atores e um cenário restrito a um campo de guerra, o diretor Doug Liman usa o suspense para manter o interesse do espectador. A narrativa oscila entre a possibilidade iminente da morte e a salvação que vem como um suspiro. O clima de estresse é constante, levando à fadiga não apenas os personagens.

E, como se não bastasse, para causar mais incômodo, a câmera foca o soldado tirando uma bala da própria perna com um alicate.

Nesse clima de tensão, o filme faz a representação do inimigo onipotente e onisciente que os EUA querem tanto eliminar. Desfecho este que não está perto de acontecer.

“Na Mira do Atirador” estreou no dia 24 de agosto e o trailer pode ser visto aqui.

A mentira também pode salvar

Os meninos que enganavam nazistas, 110 min, 2017, dir. Christian Duguay

Narrado em primeira pessoa por um dos garotos, Joseph, o mais novo, o longa de 110 minutos, conta a saga de dois irmãos, de 10 e 12 anos, que precisam fugir para Itália e fingir que não são judeus para enganar os nazistas que estavam invadindo Paris, durante a segunda guerra mundial.

A história, real e autobiográfica, foi adaptada ao cinema e dirigida por Christian Duguay (Vermelho Brasil, 2014) a partir do romance homônimo que Joseph Joffo escreveu e lançou na década de 70. Esta é a segunda adaptação para o cinema. A primeira foi em 1975, dirigida por Jacques Doillon (A Bag of Marbles).

Duguay – que em 2003 produziu e dirigiu a mini série para TV “Hitler: The Rise of Evil”, abordando a biografia do ditador, o nazismo e a segunda guerra – retoma esta ambientação com “Os meninos que enganavam nazistas”, porém agora sob uma ótica humanista. A narrativa se inicia em maio de 1942. Logo nos primeiros planos do filme, em uma edificação de Paris, lê-se “Liberté, Egalité, Fraternité” (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) – lema da Revolução Francesa – quase que como um contraponto às dificuldades que viriam a acontecer nas próximas sequências.

O menino Joseph (Dorian Le Clech) é filho de um barbeiro que tem o seu salão frequentado por judeus. Em um primeiro momento, quando dois oficiais do exército nazista entram para cortar seus cabelos, ele os atende e diz, todo orgulhoso, que dentro de seu estabelecimento só tem judeus. O clima fica tenso.

Ele valoriza esta honestidade para os filhos, comentando com a família o episódio. Mas, quando percebe que os alemães estão chegando e capturando os judeus, orienta seus dois filhos mais novos a mentir e nunca dizer a sua religião, mesmo se apanharem por isso. Justifica-se dizendo ser as circunstâncias.

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Ensina na marra, simulando um interrogatório. Pergunta ao filho se ele é judeu e bate em seu rosto. Repete algumas vezes até o filho gritar que não é judeu. Se abraçam e diz: “É melhor tomar um tapa que machuca do que perder a vida por medo de tomar um”. Os garotos saem para viagem. Os pais os observam da janela. Todos choram.

A fotografia valoriza as paisagens, com planos abertos mostrando os personagens em deslocamento. Cenas com alto teor emocional, momentos que se alternam entre os limites da dor e da felicidade. Fugas e escapes daqueles que só por muita sorte, diante de tantos judeus sofrendo violências físicas e psicológicas.

Já no primeiro trem que pegam, antes de chegarem ao destino, são abordados por nazistas e salvos por um padre que mentiu dizendo que os garotos estavam viajando com ele.

“Obrigado por mentir”, diz o mais velho ao padre.

E assim a trama se desenrola com muitas emboscadas e mentiras. O otimismo se apresenta nestes limites. Nos momentos de stresse, entre os personagens, sempre presente algum diálogo que remete à esperança ou à luta, a não desistência.

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Outro destaque são as atitudes dos irmãos em meio às dificuldades, protegendo-se mutuamente. Eles aprendem a se defender e se integram nas milícias (organizações de judeus que viviam se escondendo) com suas comunicações dissimuladas.

O tempo passa e a vida deles se constrói entre fugas e reuniões com a família, em vários locais diferentes.

Em um dos encontros, o pai se assusta ao ver o filho machucado. Joseph repete o seu ensinamento, dizendo “É melhor tomar um tapa que machuca do que perder a vida por medo de tomar um”, mostrando que aprendeu direitinho.

Recheado de momentos tensos e soluções inesperadas, “Os meninos que enganavam nazistas” vai agradar aqueles que buscam um filme “enquadrado”, com polarizações entre o bem e o mal.

O filme estreou no Brasil em 03 de agosto. E o seu trailer pode ser visto aqui.

Cuba Jazz é a réplica de talento e improviso

Brasil, 85 min, 2016, dir. Max Alvim e Mauro di Deus

Cuba habita o imaginário de todo o mundo.

Afinal, quanto ainda nos falta conhecer desta ilha que, devido ao embargo econômico dos EUA, se manteve fechada ao mundo capitalista?

As coisas estão mudando, Cuba vem passando por um processo progressivo de abertura, onde é possível conhecer com mais detalhes a sua produção cultural.

O filme Cuba Jazz, desempenha um pouco este papel. Faz um recorte musical específico no Jazz tocado na ilha pelos cubanos e revela um movimento dos músicos e produtores contemporâneos que defendem que o Jazz Cubano é um gênero, derivado do Jazz de origem Norte Americana, porém independente e diferente do que hoje se chama de Jazz Latino.

Com uma linguagem tradicional, o documentário de 85 minutos começa mostrando o Malecón, a avenida beira mar, um dos ícones da paisagem de Havana, onde é possível observar as ondas quebrando nos muros e jogando água na avenida.

Depoimentos de músicos, críticos, produtores e estudiosos locais sobre a origem do Jazz Cubano, suas influências e história, como se desenvolve, as escolas, o apoio do governo, como vivem os músicos e suas dificuldades são intercalados com cenas do cotidiano, imagens das ruas, da arquitetura, do comércio, das escolas, ressaltando os aspectos humanos e mergulhando nos costumes através de uma crônica audiovisual.

O documentário também incorpora a literatura “abrindo” as sequências em forma de capítulos, com trechos de escritores e intelectuais locais, como Nicolás Guillén, Lezama Lima e Alejo Carpentier.

Mas, por conta de seu conteúdo, sua temática, o filme, dirigido por Max Alvim e Mauro di Deus, vai além dos clichês do turismo. Ele nos revela também novas facetas da música cubana, quiçá mundial.

Marcada pelo embargo comercial, que fez da ilha literalmente uma ilha, isolando-a do mundo ocidental capitalista, Cuba se superou no que diz respeito a educação e cultura, produzindo e criando uma arte expressiva com personalidade própria.

Ironicamente, como uma resposta ao isolamento, a partir de um estilo musical de origem norte americano, os músicos cubanos recriaram um gênero próprio, o Jazz Cubano, a partir de sua realidade, com influências latinas e africanas.

A liberdade de mesclar outros elementos é explicita nos primeiros minutos do documentário com a apresentação de Yissy Garcia (& Bandancha), que se utiliza do sample para produzir Jazz com características autorais, próprias.

A produtora local Yoana Grass foi responsável pela curadoria junto aos músicos, que, como personagens, não apenas participaram do documentário, mas ajudaram em sua confecção. Essa energia é expressada pela espontaneidade dos mais de vinte depoimentos e cerca de nove apresentações musicais de Jazz.

Como opção estética e contraponto à crônica audiovisual tão colorida, as apresentações de Jazz, coração do documentário, estão destacadas em preto e branco.

Solos de bateria, duetos com piano, temas envolvendo outros instrumentos como contrabaixo, violino e percussão, demonstram que Cuba nestes últimos anos incorporou uma linguagem mais universal, mas mantem sua personalidade própria.

As interpretações de Zule Guerra (“Corcovado”, de Tom Jobim) e de Daymé Arocena (“Bésame Mucho”, de Consuelo Velázquez), que, em depoimento, afirma “inventamos nosso próprio Jazz”, são outras referências deste movimento.

Daymé, além de cantar, conta um pouco de sua história, mostrando a sua avó cozinhar, comparando metaforicamente a música a uma panela de comida onde se coloca um monte de coisas, os mais variados ingredientes, e sai alimento “rico e saboroso”. Ela pede para avó cantar enquanto cozinha.

A riqueza das cores, dos elementos visuais e sonoros, revela a alegria de um povo que tem criatividade para se virar diante de tantas dificuldades, improvisar. Como no Jazz.

O filme, que foi exibido pela primeira vez no 38° Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano em Havana, em dezembro de 2016, teve a sua estreia no Brasil em 28 de julho na praça do Memorial da América Latina, em São Paulo, durante o Festival Latino-Americano de São Paulo.

É possível assistir ao trailer aqui.

Itamar não sai do meu radar

Sampa Midnight – Isso não vai ficar assim, 1983

Em 1989, quando voltei a morar em São Paulo, desta vez para fazer faculdade de comunicação, conheci um universo musical que me fez mudar os conceitos que tinha até então sobre a música popular brasileira.

O ouvi Itamar Assumpção e, a partir daí, passei a acompanha-lo como fã ardorosa e compulsiva.

Depois, já como produtora cultural, quando surgiu uma oportunidade interessante de desenvolvimento de um trabalho, onde o artista tivesse um alto grau de liberdade para criar, eu o convidei para compor uma dupla com o também querido Antonio Peticov.

Foi um período muito intenso e produtivo, ele já estava doente. Mas, antes de terminar a segunda fase do projeto, Itamar infelizmente faleceu.

Em 2009, fui convidada para escreve sobre o álbum “Sampa Midnight”, um dos doze que compoe o box “Caixa Preta”, lançado em 2010 pelo Sesc, com a obra completa do Itamar.

Reproduzo abaixo a apresentação que escrevi e deixo o link para o audio do álbum que não me canso de ouvir.

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Sampa Midnight  – Isso não vai ficar assim

Itamar une arquitetonicamente letras e notas, fazendo com que estes elementos se entrelacem de forma tão ampla e intensa, que a soma das partes resultam em algo além, de outra dimensão.

Sampa Midnight é assim, um cd de outra dimensão, para ser ouvido e entendido. É necessário destrinchar a sua poesia, perceber cada instrumento e seus arranjos, sentir o peso do contrabaixo, as interferências do trombone, os breques e repiques da bateria, os gritos e sussurros dos vocais e da guitarra, sem perder de foco a interpretação de Itamar.

Da primeira à última música, são arranjos em tons marcantes, pautados por letras que contam histórias dos mais variados naipes. São Paulo é lembrada diversas vezes, mas, em especial, é cenário de “Sampa Midnight”, música homônima ao cd, que conta uma noitada de três amigos embriagados.

“Prezadíssimos ouvintes” (parceria com Domingos Pellegrini), primeira música, revela o sonho do cantor que, com todas as suas dificuldades, vive em sua luta diária produzindo arte, sonhando com o sucesso de cantar na televisão.

Já “E o quico”, a última, é um passeio pela escuridão, onde o autor, fazendo questionamentos sobre a vida (afinal, que vida é esta?), se relaciona com assombração e seres de outro planeta, chegando a ser um interlocutor entre eles, mandando recados.

Dúvidas e angústias são retratadas em “Idéia Fixa”, uma marcha pautada por gritos e sustos.

A inquietude do poeta é também exposta em “Tete tentei”, com a procura de palavras, temas, estilos e notas, metaforicamente terminando por fazer “mímicas”.

“Navalha na liga” (parceria com Alice Ruiz) é uma gostosa brincadeira com rimas. Na mesma linha, mas com notas em escalas e tom provocativo, “Vamos Nessa” (parceria com Paulo Leminski).

Mostrando a efemeridade da vida, mas ressaltando toda sua beleza, em flores, cores, personagens, bichos e até filhos, “Isso não vai ficar assim” é um pedido de amor, tão intenso, como se tudo fosse acabar no próximo instante. Em contrapartida, como um presente, “Z da questão meu amor” é a sua sincera declaração à Zena, sua esposa.

“Totalmente à revelia” (parceria com Paulo Lepetit, Luiz Waack e Marlene Wolfensberger) faz questionamentos sobre o que vem depois da morte, sobre as coisas e pessoas queridas. E aí, as orquídeas são citadas.

Têm ainda as divertidas “Movido a água” (parceria com Galvão Bastos), “Desapareça Eunice”, “Cadê Inês”, “Chavão abre porta grande” (parceria com Ricardo Guará) e o instrumental “Eldorado” (de A.C. Tonelli).

Musica simples, com arranjos elaborados. Itamar faz parte do seleto grupo de compositores que realmente faz música para ouvir, sentir e pensar. Por isto ele é tão importante e sua música é tão especial.

Para entender do que estou falando, basta clicar aqui para ouvir o Sampa Midnight pelo youtube.

Leide Moreira Jacob, produtora cultural

leide@leidemoreira.com.br

PS.: Lembro-me de uma das últimas internações de Itamar, quando fiquei sabendo, liguei e disse que iria visitá-lo. Perguntei o que ele estava precisando, se queria comer algo diferente, se gostaria que eu levasse alguma coisa. Pensei, ele vai me pedir uma fruta, um doce, um livro, sei lá, qualquer coisa. Mas ele imediatamente respondeu “pode me trazer uma orquídea”. Logo entendi. Ele queria alimentar o seu espírito. Este é o Itamar Assumpção.

“A luta de Steve” traz dor e amor

EUA, 1h58min, 2016, dir. Clay Tweel

A Luta de Steve” é daqueles filmes que, para encarar, é necessário um certo preparo emocional. Primeiro porque ele mostra sem maquiagem inúmeras situações de dificuldades pelas quais um paciente de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) é obrigado a passar, desde o diagnóstico da doença e, depois, com a evolução dos sintomas. E não é nada fácil ver alguém passar perrengues. É sofrer junto. 

Seria muito limitado, se fosse só isso. Mas não. O filme traz questões que vão além do sofrer pelo adoecimento e pelas perdas, apesar da presença do intenso peso emocional.

O documentário conta a historia de Steve Gleason, ex-jogador da NFL (National Football League) e herói em Nova Orleans, que, em 2011, foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença neuro degenerativa caracterizada pela perda de força progressiva, ainda sem cura.

Seis meses após o diagnóstico, sua esposa descobre que está grávida e Steve inicia a gravação de uma série de vídeo-diários com mensagens para seu filho, Rivers, que, naquele momento, ainda viria a nascer.

Tweel, o diretor, se utiliza destas gravações para compor uma narrativa verdadeira e sincera em primeira pessoa. E este é o seu grande trunfo, já que se utiliza de uma linguagem basicamente tradicional, recheada de entrevistas, depoimentos e imagens de acervo, como jogos e programas televisivos que Steve participou, trazendo também informações sobre a doença.

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Steve em uma de suas viagens de aventura

O personagem é forte, a sua rotina é intensa e cheia de momentos de lazer envolvendo esportes e viagens. Suas filmagens trazem seu sofrimento, mas também suas realizações. Ele é inteligente, não perde tempo. Em meio a tantas dificuldades, se prepara para o futuro, gravando um banco de áudio com sua voz para ser utilizada em um sistema de comunicação com o computador através do movimento ocular.

O filme aborda questões importantes, como a sua preocupação em “deixar os seus relacionamentos em ordem”, termo que utilizou para dizer “resolver suas diferenças ou mal entendidos”. Nesta proposta, ele entrevista o seu pai, confrontando-o sobre as suas cobranças, inclusive no âmbito religioso. Apesar de sempre carinhoso, ele se aprofunda, comentando das brigas dos pais, quando era criança, e da educação rígida que lhe foi imposta, na base do medo.

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Steve, seu pai e seu filho

O documentário apresenta uma pesquisa que diz que 95% dos pacientes não aceitam realizar a traqueostomia, procedimento no qual se abre um orifício na traqueia do paciente para conectá-lo um respirador artificial, garantindo a entrada de oxigênio. É um recurso utilizado nos pacientes de ELA, já que, com o avanço dos sintomas, há o comprometimento dos músculos da respiração, levando à falência respiratória.

Faço aqui um parêntese de caráter pessoal. Minha mãe, que também foi diagnosticada com ELA em 2005, depois da traqueo, realizada em novembro daquele ano, através do único movimento que possui, o ocular, nestes últimos dez anos, ela criou 299 poesias e as comunicou através de uma tabela visual com apoio de suas cuidadoras. Esta produção resultou em 3 livros (Letras da minha emoção, de 2006; Poesias para me sentir viva, de 2008; e Não espere de mim apenas poesias, de 2015), 29 musicas (compostas por Nuno Mindelis, Elder Costa e Rafael Toledo) e 1 filme documentário (Minha poesia, de 2016, dirigido por mim). Sim, a sua história é forte e não tenho dúvidas de que ela, assim como Steve, faz a diferença neste “mundo-cão”.

Fiz este depoimento para enfatizar que a vida não acaba com a traqueo. Ela muda, ressignifica-se. E isso acontece a todo momento, não é?

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Steve se comunicando através do movimento ocular

“Tenho certeza que há pessoas que recebem este diagnóstico e desistem completamente, enquanto em mim, acendeu um fogo. Não vou desistir. Irei além, um pouco além do limite.”, disse Steve em um de seus depoimentos, quando descobriu que estava doente. Engajado, participa ativamente de campanhas sociais e políticas por melhores condições para os pacientes com ELA.

Ele consegue muito, inclusive reverter investimentos que o governo dos EUA havia cortado e que, depois, devido ao seu ativismo, virou lei sancionada pelo presidente Obama, beneficiando os pacientes em mesma situação. Todo este engajamento político é retratado no documentário.

“A Luta de Steve”, que, em 2016, ganhou o Prêmio do Público no SXSW Film Festival e concorreu ao Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance, estreia em 13 de julho nos cinemas.

É possível ver o trailer aqui.

Luzes e cores de Antonio Peticov

Bicicleta, 160 cm X 160 cm, 1998, tinta acrílica sobre tela

Conheci Antonio Peticov há anos atrás, quanto eu estava produzindo um prêmio de arte e ele inscreveu a sua obra dois dias depois de encerradas as inscrições.

Eu, como produtora, recebi o trabalho, conforme orientação do curador, mas evidentemente que foi um ato apenas protocolar, já que, estando fora do prazo, não entraria na concorrência.

Mas, a inscrição tardia no concurso foi na verdade uma ótima desculpa para a gente se conhecer, realizar grandes projetos juntos e tornarmos bons amigos.

Peticov construiu uma carreira sólida com uma produção altamente diversificada, passando pela pintura, desenho, gravura, escultura e ilustração. É autor de diversas instalações em locais públicos, como o “Momento Antropofágico com Oswald de Andrade”, na estação República do metrô de São Paulo.

Outra obra de grande visibilidade é a “Torre Transburti”, localizada na Av. Paulista. Com uma altura total de 125 metros, seus anéis coloridos e iluminados é destaque na noite paulistana.

Peticov apresenta soluções para questões que ele mesmo se impõe. Tudo tem um porquê, uma explicação. Ele parte de pesquisas e faz questão de deixar este “rastro” no produto final, facilita o que está complicado. A síntese é mais uma de suas qualidades.

Em 2002, em parceria com a Unesco, desenvolvemos dois grandes projetos envolvendo os locais eleitos “Patrimônio da Humanidade no Brasil”, onde ele teria que fazer releituras destes locais a partir de imagens criadas por fotógrafos conceituados, rendendo exposições dos originais, telas em giclê, coleção de pôsteres, postais, cartões, livros, eventos, sites e uma série de outros produtos e desdobramentos para a empresa patrocinadora.

Para a primeira fase deste projeto, “Patrimônios Urbanos”, sobre as cidades brasileiras eleitas patrimônio da humanidade, para fazer “dobradinha” com Peticov, convidei Itamar Assumpção – que é um assunto a parte, pretendo falar dele em breve aqui – para compor versos sobre cada um destes locais.

Para São Luis do Maranhão, Itamar compôs:

“Atenção
Som luz câmera ação
São Luis do Maranhão”

E o Peticov, a partir de uma foto de um homem cego andando com a sua bengala, feita por Renato Soares, desenhou “Som Luz”, batizado assim, neste bate-bola com Itamar.

Me lembro que ele ainda tirou uma onda de mim. Foi me mostrar o desenho que havia acabado de fazer e deu um super grito. Fingiu um susto desesperado, reclamando que a Diana, sua cachorra, tinha “estragado” o seu desenho do cego.

Essa leveza também é uma de suas muitas qualidades.

O Salvador de Itamar virou “Sarador”. E, a partir da foto do Renato Soares, Peticov transformou as baianas em sinos e criou “A Babá Ía”.

Para Ouro Preto, Itamar fez:

“O Brasil, visto de longe é tão pobrezinho…
Mas, quanto se chega perto, são outros quinhentos
É Ouro Fino, é Ouro Verde, é Ourinhos,
é ouro branco, é ouro amarelo, é Ouro Preto”

E Peticov, agora a partir de uma foto feita por Izan Petterle, criou “Outro Preito”, aplicando um desenho do Lula no lugar da fonte de água. Homenagem?!

Assim, também foram produzidas obras sobre as outras cidades (Olinda, Congonhas, Brasília, Diamantina e Cidade de Goiás). Depois dos Patrimônios “Urbanos”, produzimos os “Naturais”, envolvendo uma série de outros fotógrafos e também a poeta Alice Ruiz. Mais obras, exposições, livro, postais, pôsteres e eventos.

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Em  2003, lançamos “Trabalhos Escolhidos – 40 anos de Antônio Peticov”, um livro composto por uma seleção de obras, com evento e exposição no Masp.

Ferreira Gullar escreveu “… a sensação que me fica, ao refletir sobre a personalidade de Antonio Peticov e sua obra tão diversa e instigante, é a de que estou diante de um artista em pleno domínio de sua técnica, maduro, e que, no entanto, mantém vivo dentro de si um menino ainda encantado com as formas e as cores do mundo.”

Jorge Mautner, em uma das apresentações, coloca que “… mesmo quando muito jovem, parecia um velho sábio”. E finaliza destacando “Sua capacidade de penetrar e absorver ideias, as mais contraditórias, faz da sua obra uma perene ressurreição da beleza e da graça divina a cada instante”.

Peticov circula com fluência junto a outras áreas culturais, em especial na música, com participações importantes no tropicalismo, influenciando compositores e grupos. Rita Lee o cita em várias oportunidades no seu livro “Uma autobiografia”, assim como, Arnaldo Batista, no documentário “Loki”. Ah, mas tem também o Gil, o Caetano, os Novos Baianos e tantos outros.

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Produção Primorosa, 2016, tinta acrílica sobre tela

Aquela entrega atrasada que ele fez para o Prêmio que eu estava produzindo nos rendeu três livros, várias exposições, eventos, produtos e, o mais importante, nossa amizade e admiração mutua.

No ano passado, nesta época, na festa de seu aniversário de 70 anos, sempre surpreendendo, ele me deu de presente a obra “Produção Primorosa”, composta por uma taça dourada com o perfil do meu rosto (lado direito da taça) e do meu marido (esquerdo), além dos livros que nos formaram e muita, muita fumaça colorida.

Não me perguntem o porquê.

Para conhecer o trabalho do querido Peti, que completa 71 anos no dia 02/07, basta mergulhar em seu site www.peticov.com.br.

Aviso aos leitores

Há algumas semanas, eu poderia trocar o nome do meu blog e ninguém notaria, a não ser meu primeiro leitor – e único até há pouco tempo – meu “Just Husband”. Sim, meu marido se apresenta como “Just Husband”. Isso foi depois de uma brincadeira que rolou com um outro casal, onde nós, mulheres documentaristas, estávamos reunidas em um festival, falando de nossos filmes e projetos, e os nossos maridos, diante de tanto assunto, diziam que eram “somente maridos”. Virou jargão por aqui. Muito Fofoooooo!

Agora, como o meu “Just Husband” já não é mais o único leitor (continua no posto de revisor e consultor), gostaria de comunicar que a partir de logo mais este blog vai se chamar e ser chamado de:

RECORTES de Leide Jacob

Mais fácil de lembrar. O “Just Husband” ficava toda hora me perguntando “qual o nome do seu blog mesmo?”, reclamou que estava achando meio complicado.

De resto, tudo igual. Proposta, autora e o “Just Husband” fofo também.

Nos encontraremos aqui, no RECORTES de Leide Jacob.

“O pão e o beco” é looping

Iran, 10 min, 1970, dir. Abbas Kiarostami

Não basta ser gênio, tem que ser Kiarostami. Se cinema é contar história, ele já começa sua carreira produzindo um filme com final aberto e em looping.

Não é a toa que em seu currículo contam mais de 46 filmes (IMDb), muitos consagrados, como “Gosto de Cereja”, de 1997 (Palma de Ouro no Festival de Cannes), “E o vento nos levará”, de 1999 (Leão de Ouro no Festival de Veneza), além de outros também premiados e que são temas de estudos frequentes nas escolas de cinema, como “Close-up”, de 1990, e “Ten”, de 2002.

Em 10 minutos, sem diálogos e com uma estética neo-realista, “O pão e o beco” traz como trilha inicial trechos da música “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, dos Beatles e conta a história de um garoto e seu dilema ao encontrar um cão bravo que se torna um obstáculo para chegar em casa.

Suas aflições e dúvidas são explicitas como o uso frequente de planos aproximados, em close up, mostrando sua expressão de angústia diante do seu impasse.

O garoto resolve o problema oferecendo um pedaço de pão para o cão que passa a segui-lo até a sua casa, ficando ali parado na porta. Mas na seqüência outro garoto vem caminhando, levando suas compras, e, ao vê-lo passar, o cão, novamente bravo, late forte.

Apesar de oferecer ao espectador a liberdade de imaginar o que vem depois, Abbas Kiarostami, otimista, sugere repetição da estória em looping. Genial.

Com tantos significados e simbolismos, o filme possibilita inúmeras interpretações, passando de analises mais amplas de como se chegar a resolução de problemas; a questão da persistência e força de vontade; relação entre homem-cães e seus interesses etc. Muito assunto para um filme que nos mostra o essencial, sem maquiagem.

Kiarostami faz assim, revela a vida de forma simples. A gente que complica.

Você pode assistir “O pão e o beco” aqui.

Em “Um lugar ao Sol”, a elite solta o verbo

BRA, 66 min, 2009, dir. Gabriel Mascaro

Se um “um filme fala por si mesmo” (Henry Breitrose, do Department of Communication Stanford University, no artigo “There is nothing more practical than a good film theory”, afirma que “the film speaks for itself”), ou seja, em seu modo, o filme deveria ser auto suficiente, sem necessidade de explicações a respeito, em “Um lugar ao Sol”, de Gabriel Mascaro, um extrato da elite brasileira solta o verbo e deixa claro que “se acha”.

Trata-se de um documentário, mas em vários momentos mais parece uma comédia, afinal, as caricaturas são, por essência, engraçadas.

Os personagens são pessoas que moram em coberturas de valorizados prédios das cidades de Recife, São Paulo e Rio de janeiro. E, para chegar aos entrevistados, Mascaro pesquisou em um livro que cataloga a elite e pessoas influentes. Esta informação está nos letreiros iniciais do filme, mas não se especifica qual é a publicação. Não se informa o seu nome. Dos 125 moradores de coberturas contatados, nove concordaram em ceder entrevista.

Mascaro conseguiu não apenas realizar as entrevistas, mas deixou os seus entrevistados tão a vontade a ponto de contemplar momentos “pérolas”, onde eles “soltam” expressões em tons arrogantes e preconceituosas, como se eles tivessem conversando com seus amigos íntimos.

Mais que revelar como a elite brasileira pensa, “Um lugar ao Sol” é um precioso instrumento para se pensá-la.

Interessante como este grupo, pertencente à camada mais alta da pirâmide sócio-econômica, fisicamente residem em locais mais elevados, assim como metaforicamente se consideram “melhores”. Estar por cima é uma posição física e imaginária também.

A amostra entrevistada é expressiva. As nove famílias que participaram estavam bem dispostas a falar. Afinal, se é para “aparecer”, “vamos fazer bonito”! Os relatos naturais tornam-se caricaturais, justamente pela veracidade do conteúdo. São tão reais e ao mesmo tempo tão “deslocados”, tão “sem cabimento”, que o espectador fica pensando como é que o entrevistado tem coragem de pensar e, o que é pior, de dizer o que pensa assim, na cara dura, de frente para a câmera. Eles não tem noção do quão “caricaturescas” são as suas declarações.

Muito pelo contrário, acham que estão fazendo “bonito”. Estão loucos para falar, aparecer, contar o que tem e como vivem. Mascaro apenas deu espaço para estas manifestações e ainda os poupou, não identificando nenhum entrevistado, com exceção do empresário que se apresentou e aproveitou para fazer um merchandising de seus empreendimentos, em especial do Bahamas Club, casa noturna para homens que, segundo ele, é a maior casa noturna da América Latina.

A amostra entrevistada foi feliz ao abarcar perfis significativos.

O filme começa mostrando construções de prédios. A câmera fixa em um gancho que está em elevação com foco para baixo mostra cabos de aço sendo erguidos pelo mesmo gancho. Ao chegar ao topo, operários retiram os cabos do gancho. Nesta sequência, a câmera permanece o tempo todo no mesmo plano, focalizando de cima para baixo, apesar do gancho em elevação.

E neste momento, inicia o primeiro depoimento que é de um casal de homens dizendo que “luxo mesmo, seria morar em casa. Sensação de que o aspecto da morada tá bom, não há mais porque se mudar”. “É a sensação de estar vivo”, um dos entrevistados diz, e, contraditoriamente, afirma que vendo o mar e o céu da sua cobertura, pensa que tudo isso não vale nada mesmo. E volta a dizer que isso é vida é que talvez nada disso valha alguma coisa.

Início leve, com toques sutis de egos.

Mascaro se utiliza de cenas de construção de prédios, dos empreendimentos a venda, das favelas e ainda da vista lá de cima para articular uma entrevista a outra, como conectores.

O segundo entrevistado, um playboy desquitado, já não é tão recalcado, gosta de falar, contar vantagens, falar das festas, diz que quer mesmo aproveitar. Faz questão de falar que, dos quatorze andares do prédio, sete contam com segurança particular. Então ressalta que quem mora ali é muito rico, mas dá uma de coitadinho dizendo que ele é um dos que têm menos, que ali tem gente com muito, “mais muito mais” grana que ele. Diz que nunca se preocupou com status e que não se sente só.

A partir daí, a escala é crescente, o negócio esquenta. As entrevistas começam a revelar, de modo nú e cru, o pensamento da elite brasileira. O espectador passa a ser bombardeado com inúmeras colocações arrogantes, preconceituosas e mesquinhas.

E, neste sentido, o filme prende a atenção. Diante das falas “surreais” de cada entrevistado, a expectativa é para saber o que virá depois. O negócio chega a ser hilário, coisa do além mesmo.

Na sequência, o casal entrevistado é carioca e fala do privilégio de morar no Rio. A senhora comenta que sempre morou “olhando por cima”, perto do céu. Fala a respeito das balas oriundas de tiros entre as duas favelas vizinhas, que consegue ver o colorido dos projéteis, diz, “é trágico, mas é bonito”. “Eles trocam tiros e as balas são coloridas”. “Quando se está em cima, você tem condições de participar de coisas que quem está em baixo não participa, a coisa do som”.

O marido dela complementa dando, sob o seu ponto de vista, a definição de cobertura “você sabe a definição que você aprendeu no colégio de ilha, ela está errada. Ilha é um pedaço de terra cercado de todos os lados, é o que eles te dizem. Eu digo que tem menos um, que é por cima. A cobertura é a mesma coisa, você tem a outra dimensão. É o por cima”.

Imagens de prédios de alto padrão, dando destaque para os seus nomes, a maioria europeus, como Rembrandt, Stradivarius, Versailles, Akrópolis, Cannes, Conde de Toulon, Renoir, Lumiere, Casa Alta.

A próxima entrevistada fala da sua preferência por cobertura, que ela não gosta do barulho das panelas, que as coberturas possibilitam mais privacidade. Aproveita ainda para falar que tem um barco, um veleiro com quatro quartos, onde é possível permitir a “natureza entrando em você”. É a compara com a cobertura. Diz que não tem barulho e isto é muito legal.

Cenas de pessoas caminhando, mostrando sempre do alto, a visão da cobertura.

A outra entrevistada, uma senhora de origem estrangeira, em sua casa de praia, revela que conheceu toda a nata da MPB, como Tom Jobim, Chico Buarque, Edu Lobo, Nara, Elis Regina, Vinícius de Moraes, que, segundo ela, virou um grande amigo.

Cenas de “Orfeu Negro”, com garoto em cima de um morro brincando com uma pipa em formato redondo, com o Rio ao fundo, só som de MPB. E a entrevistada diz que descobriu o Brasil através da estreia do filme Orfeu Negro em Paris. Diz que a pobreza é a falta de educação. Ela mostra a sua coleção de artesanato e comenta que o pessoal do interior é mais interessante do que o da cidade.

Ela sai do padrão do restante dos entrevistados, valorizando o caboclo, dizendo que no réveillon ela quer ver macumba e não fogos de artifícios, pois isso é possível ver em outros lugares do mundo. Como se fosse brasileira, ela, com seu forte sotaque europeu, diz “as coisas que são nossas querem acabar com isso”.

O dono do Bahamas é o próximo entrevistado. Ele revela que tem cinquenta e um anos de idade, diz que até aquele momento é dono de cinco empresas, detalhando cada uma, informando inclusive o endereço.

Imagens de prédios em lançamento, com muros que mostram as suas estruturas em desenho, maquetes com bonecos ilustrando os empreendimentos.

A senhora, próxima entrevistada, diz que vivencia estar em “outro plano”, uma sensação de domínio, que “está dominando todo espaço”. Ela comenta que é voluntária em um grupo de apoio ao câncer, em hospitais. Fala que “o egoísmo é o mal do mundo”. Diz que o voluntarismo é uma forma de acabar com o egoísmo. Afirma que a vida tem polaridade, o mal e o bem. E o bem tem que dividir, não pode ficar no “eu”.

O áudio volta aos dois primeiros entrevistados com imagens aéreas, onde um deles comenta que o incômodo vem sempre de cima. Então completa: “a cobertura alivia neste sentido, você nunca vai ter o vizinho de cima”.

E a entrevista hilária, caricatural e “fora de série” vem com uma senhora e seu filho, um playboy do estilo “eu sou o bom”. Ela diz: “O por do Sol aqui é soberbo”.

O filho sempre completando: “É uma questão de sonhos de todos, né, mamãe?”. E ainda: “A natureza está disposta a todos, a questão é a sensibilidade de cada um ter para aproveitá-la”, como se para possuir uma cobertura bastasse ter sensibilidade.

Mostra-se o nascer do sol.

Na sequencia, uma retomada aos primeiros entrevistados, o casal de homens, com cenas deles sentados, cada um em uma poltrona, folheando livros de arte, com a TV ligada em um jogo de tênis, algo bem do tipo “fiquem ai fazendo que quiser que vou filmar vocês de maneira casual”.

Volta para a família carioca (aquela que associou a cobertura ao conceito de ilha), agora com a mãe mostrando o quarto do filho, enquanto ele dorme. Ela comenta as frases de artistas e/ou pensadores que ele escreve na parede de seu quarto (um exemplo: “nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir”. Chorão) e completa com a “pérola” de que ele é um “adolescente maduro”.

Mas o melhor está por vir, quando afirma “este é o mundinho dele, mas com certeza é ainda mais amplo porque ele consegue ter esta vista toda”.

Mostra-se a vista, imagens produzidas por ela que diz que adora filmar a paisagem do Rio. Mostra o morro da Dna Marta, ocupado pela comunidade e ela diz “a natureza é ocupada por gente que não preserva, fazem uma coisa fechada, com regras próprias, e que tão perto, tão longe, fazem um bang bang”. Ela diz em tom de vítima que assiste a esta guerra sem participar, muitas vezes sentindo a consequência de estar tão perto.

Então, reúne-se a família, ela, o filho, que estava deitado enquanto a mãe mostrava as frases na parede de seu quarto, e o marido, aquele que falou inicialmente sobre “o conceito de ilha”, para explicarem como é morar em uma cobertura.

O adolescente diz que é muito bom estar no meio da natureza. O pai, querendo ser a palavra final, questiona como se define “qualidade de vida”, argumenta que é algo inexplicável. A mãe, acertando mais uma dentro, diz “estamos tão acostumados com isso”. O filho: “também não sei avaliar porque eu nunca morei em outro lugar”.

E neste ponto, uma interferência do diretor, perguntando diretamente se existem invejosos.

O filho comenta que quando está preenchendo um cadastro, o tratamento muda completamente quando se identifica como morador de cobertura. E o papo gira em torno da conveniência ou não desta identificação.

Cenas de pássaros voando, alternando com imagens de cima para baixo, mostrando o trânsito e também o horizonte com o sol entre nuvens, além do Cristo redentor no Rio.

Volta à família reunida na sala, onde o assunto agora é segurança. O garoto diz que em cobertura é melhor porque é mais alto e, portanto, em caso de assalto, é mais difícil chegar.

Ora, não seria ao contrário? Sempre ouvi dizer que o apartamento mais visado é justamente a cobertura, pois supostamente o morador é de mais posses.

Ele emenda listando os locais no mundo que conhece para dizer que aqui no Brasil não se tem segurança. A mãe, com seus comentários desconcertantes, diz “não é porque é pobre que é bandido”.

Cenas da cidade, com destaque para outdoors de prédios em lançamento, onde os textos ressaltam a vista dos empreendimentos.

Imagens do Rio de Janeiro, com prédios integrados (ou invadindo?) à natureza, intercaladas com imagens de favelas nos morros, também integradas (ou invadindo?) à natureza.

Aquário e fontes. Volta-se a casa do empresário da noite. Ele, mais uma vez, em tom de vantagem, relata o quanto gera de emprego e renda.

Diz que frequenta os melhores hotéis, lojas, possui os melhores relógios, roupas, as mulheres bonitas, a grande literatura, as melhores comidas, bons carros. E a habitação, ele conclui, “tem que ser também diferenciada das outras, um pouco mais no alto, mais confortável”.

Apresenta-se de fato através dos comentários hilários “no avião você tem a primeira classe e a senzala lá no fundo”. Complementa “na sociedade você tem mulheres com bolsa Louis Vuitton e outras com saco plástico na mão”. E ainda “no trânsito, comenta que tem gente no fiat velho e outros na Mercedes ou jaguar”. Finaliza esta questão dizendo que com estas diferenças se sente muito bem e que veio ao mundo para os prazeres bons da vida.

Metido a filósofo, diz que está lendo um livro “fascinante” chamado “O dia em que Nietzsche chorou”. E começa a explicar quem era Nietzsche. Neste momento, mais uma intervenção do diretor, que o corta perguntando “o que é poder?” O empresário logo diz que tem uma predisposição genética para a liderança. E volta a “filosofar” comentando que tem outras “filosofias que defende”.

Imagens da natureza e corte para uma moça tomando sol no térreo de um prédio, vista de outra cobertura. Como contraponto, cenas de praias com poucas pessoas. Sombra de prédios na areia e água.

Cenas de um jovem estilo hippie chic em um estúdio tocando guitarra. Corte para ele na sala dizendo coisas contraditórias. Gago, começa contando vantagens, dizendo que o seu prédio é o mais alto dos vizinhos do quarteirão e por isso é tranquilo tomar banho de piscina e tocar, que não tem problema.

Diz que com ele não tem essa de playboy não, que os seus pais ralaram bastante, trabalharam muito, que isso não foi herança de ninguém, que eles trabalharam. E solta sua “pérola” ressaltando que se ele está aqui hoje é porque seus pais trabalharam muito para ele ter esta condição de vida boa. Este é um dos muitos picos cômicos.

E no final, no estilo jovem consciente, diz que ainda quer trabalhar muito para um dia ter a cobertura dele. Fala que está terminado o curso de direto, ressalta a importância do diploma, afirmando “ele faz a pessoa ser politizada”. E continua com o discurso do jovem consciente dizendo “o direto mexe muito com isso”. Diz que já estagiou em um escritório e aí deixa escapar outra “pérola” afirmando “o direito é o meu hobby”.

Imagens de escadas e mostra-se o andar superior, a área externa de uma cobertura. Áudio para do garoto dizendo que prefere tomar banho de piscina, que o mar tá sujo, tem tubarão. Outra “pérola”. E descontrai dizendo “tomara que corte isso, fazendo propaganda negativa da cidade”. Mas fica sério novamente em mais um surto de consciência plena e finaliza “aqui onde vivo não é a realidade do Brasil”.

Imagens de fachadas de prédios, de baixo para cima. Contraponto com imagens de cima para baixo, mostrando prédios em construção. Pescadores tirando uma rede do mar, vindo lixos como plásticos.

Imagens do trânsito. Noite. Luzes dos prédios. Área externa de uma cobertura.

Áudio do “baladeiro separado”, já entrevistado anteriormente, dizendo que é legal fazer um documentário sobre coisas boas, porque as pessoas só fazem documentário de coisas negativas. E diz “este Documentário é de coisa positiva”. Parabeniza o diretor dizendo que esta iniciativa é muito legal, muito bacana, e que não é o que ele tem se acostumado a ver. Mais uma “pérola” do filme.

Neste momento, outra, agora do diretor Mascaro respondendo “obrigado” sem aparecer. Filme repleto de “pérolas”.

Volta-se para a senhora e seu filho playboy, dizendo que é inigualável o prazer de poder desfrutar de uma cobertura, “ela é melhor que uma casa de praia porque está sobre todos, em cima”. O filho, do tipo que gosta de dizer as verdades filosóficas, diz que é “um fator inspirador que ajuda na abordagem do mundo, a segurança do ser está no que ele inspira e vive em sua intimidade. É realmente te dá força, benevolência, em sair de manhã e olhar isso aqui, eu moro aqui há 30 anos e não enjoo”.

Depois de falar de humildade, ela ainda lança mais uma: “aqui nós podemos falar com Deus mais facilmente”. Toda orgulhosa, ela mostra o seu aquário com anêmonas e peixes coloridos, a estátua de seu cachorro Bush que ela mandou fazer nos EUA e um “raccoon” (animal que ela diz ser do tipo esquilo) chamado Papuseldo.

O filho comenta sobre a aparição de Marte, fenômeno iria ocorrer em breve e que proporcionará duas luas no céu. Afirma que a sua vista está garantida. Mas, caso esteja nublado e não dê para ver, vão alugar um avião para ver em cima das nuvens.

Imagens de avião no céu, entre os prédios. O assunto gira em torno de segurança e ela diz se sentir muito segura. O filho comenta que lá tem mais de cinquenta câmeras.

Ela, olhando desconfiada, deve ter pensado “ele deixa eu falar o que eu quiser, fica perguntando coisas gerais, nada específico, tá tudo muito estranho”; pede para dar uma parada na filmagem.

Mascaro, sem deixar passar a oportunidade de documentar aquele momento, mesmo que parcialmente, em “cheque mate”, fecha o vídeo, mas continua captando o som.

Em black, só no áudio, ela diz que ele tem que pensar em perguntas ou assuntos, que “está muito, muito …”, mas não consegue exprimir seu desconforto. Diz finalmente que o documentário não está sendo muito objetivo.

Mascaro pergunta o que ela quer falar ou o que pode mudar para melhorar.

Ela não sabe dizer, fala que ainda não lhe ocorreu e pede licença, fala que vai deixar o filho um instante com a equipe.

Mascaro pergunta se ela vai voltar. Ela diz que não. E neste momento, Mascaro abre novamente o vídeo e mostra o filho que dá uma risada do tipo “essa é minha mãe, sempre aprontando alguma”.

Os créditos finais entram após imagens feitas de dentro para fora de um elevador panorâmico subindo, mostrando as coisas externas a ele, na medida em que o elevador sobe, mostra-se a fachada espelhada do prédio vizinho.

Vale a pena ressaltar que, além de inúmeras metáforas já citadas, o próprio nome do filme, “Um lugar ao Sol”, traduz uma forma de dar “voz” à esta elite, ou seja, dar um espaço para ela se pronunciar.

Ganhador de prêmios e selecionado para ser exibido em vários festivais de cinema, o documentário de Gabriel Mascaro – que depois dirigiu obras como “As domésticas” e “Boi Neon”, entre outras – cumpre metaforicamente este papel.

“Um lugar ao Sol” pode ser assistido aqui.

Como os nossos pais

Mais que exemplos, a cumplicidade é um passo além na educação dos filhos

A gente aprende por osmose mesmo.

Essa coisa de DNA ok, é verdadeira, funciona, tá comprovado, não tem o que ser questionado. Mas quando se trata de comportamento, jeito ou modo de pensar, a convivência apita alto.

Algo invisível acontece, parece que tá no ar, nas entrelinhas, subentendido, um código que ninguém ensinou, mas todos entendem. Assim que a gente aprende com os pais, com quem nos cuida e por osmose nos ensina.

Nos anos 70, qdo garota, antes dos meus dez anos, morávamos em São Paulo e viajávamos muito para Franca e Ituverava, cidades do interior norte do estado de SP, onde meus pais nasceram e meus avós moravam.

As viagens eram noturnas e, em uma época marcante p mim, tínhamos uma belina, aquele veículo antigo da Ford, com um porta malas enorme aberto por dentro, que, deitando os bancos de trás, ainda ficava maior.

Meus pais, sempre loucos, em uma época em que não se usava cinto de segurança e era permitido fumar em qualquer lugar, inclusive em locais fechados como avião, colocavam colchões lá atrás, no porta malas da belina, onde eu e meus dois irmãos viajávamos com todo conforto para dormir. E era um rinque para brigar.

Durante as viagens, eles conversavam sobre tudo, mas, em especial, política. Metiam o pau na ditadura ao som do Geraldo Vandré. Contavam que amigos tinham sumido, falavam sobre o que a polícia estava fazendo. Comentavam sobre as músicas e seus autores.

Muita MPB, com Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina, Maria Bethania e tantos outros. Eu cantava e olhava para o céu, procurando o Cruzeiro do Sul e as Três Marias. Sabia de cor o discurso do Caetano Veloso, com “Proibido Proibir”, apresentado no festival da canção de 68. “O júri é muito simpático, mas é incompetente”, virou bordão entre eu e meu irmão mais velho.

Nas passagens pelos pedágios, desligavam o som e faziam cara de sérios. Trezentos metros depois, colocam o som ainda mais alto. E ai todos cantavam juntos, felizes, como se tivéssemos ganhado um prêmio. Uma farra para mim.

Eu ficava entusiasmada por participar do “mal feito”, por ouvir músicas de autores perseguidos pela ditadura, e mais, por fingir que estava dormindo nos pedágios e depois de alguns metros me esbaldar, tirando a maior onda cantando a música.

Coisa de esquerda festiva mesmo. Sabia que éramos diferentes dos outros, da maioria dos nossos amigos.

Meu pai, que faleceu em 1998, era o mais em tudo, exagerado ao extremo, era daquele que tira um sarro ou faz piada em qualquer situação. Me ensinou a dirigir aos 14 anos e me emprestava o carro para dar umas voltinhas, era só pedir. Fofo e sempre do “sim”. Imagine se eu não o amava? Mas maluco, eu sei.

Eu tenho um baita orgulho deles por suas posições políticas. Mas também por essa loucura boa, o modo de pensar diferente, os exemplos, os “mal feitos” que são todos “do bem”, as arapucas e apertos, a liberdade e a felicidade sem tamanho.

E mais, essa coisa de participar e “aprontar” juntos, essa cumplicidade familiar é o melhor de tudo. Osmose pura.

Ah, falando nisso, #foratemer e #diretasjá.

My erotic body

USA, 56 min, 2016, dir. Michele Beck

Mais do que estar presente e fazer o melhor para um mundo realmente melhor, a ousadia também faz parte do curriculum das mulheres poderosas.

É isso que “My erotic body”, documentário de Michele Beck, um dos filmes selecionados para exibição no NYC Indie Film Festival, realizado em Nova York entre os dias 01 e 07 de maio deste ano, nos apresentou.

Michele é artista performática, mora em Nova York e há mais de 10 anos desenvolve um trabalho plástico, combinando áudio, video e objetos em instalações, usando principalmente a linguagem corporal para se expressar. “My erotic body” é o seu primeiro longa metragem.

Nos 56 minutos, Michele conta a sua experiência com aulas de pole dance (dança do poste ou dança do cano, também conhecida como barra americana), que consiste em uma ginástica composta por uma dança sensual utilizando um poste ou barra vertical sobre a qual a dançarina desenvolve a sua performance.

Mulheres comuns, que expõe sem medo a sua sensualidade nas cenas de dança. Compram e se utilizam de acessórios eróticos em um convívio bem humorado, onde cada uma cria a sua própria performance, com total liberdade de expressão sob o olhar de suas colegas, em revezamento continuo e mútuo.

Michele faz um perfil de cada participante, com depoimentos e performances, mostrando o desenvolvimento das aulas. Em alguns casos, mostra suas casas, famílias, filhos e maridos. 

Entrevista a professora, que expõe os benefícios da dança, além de outras praticantes, como Sheila Kelley, que em seu depoimento convida o público a utilizar um outro ponto de vista, dizendo “tire esse óculos masculino e olhe o mundo de forma igualitária”.

Complementa entrevistando psicanalistas e cientistas sociais, contextualizando o engajamento feminino na pole dance.

Michele, em sua apresentação na pole, traz elementos da arte performática, como figurinos e adereços específicos para ressignificar sua dança. Neste momento, o documentário atinge outras potências, em uma abrangência experimental.

Interessante destacar que este seria o modelo de filme que tenderia para apreciação masculina, nos moldes da sociedade machista.

Mas não. É exatamente ao contrário, ele empodera as mulheres por vários motivos.

As personagens – todas alegres, fortes, seguras e, por isso, lindas – apesar de simpáticas, não atendem ao padrão tradicional de beleza. São mulheres comuns, advogadas, mães, empresárias e donas de casa.

Mas não é só isso, elas não estão preocupadas em conquistar outros ou outras. Querem se conquistarem. Cada uma consigo mesma, o seu amor próprio, buscando as suas satisfações pessoais. Tudo para elas mesmas. E esta atitude as engrandecem, deixando-as mais fortes e, portanto, mais seguras e poderosas. A liberdade fortalece a auto estima.

Compartilhar estes momentos entre elas já é uma atitude corajosa. Esbanjam felicidade pelo simples fato de se permitirem aprender, viver e curtir o seu corpo.

E fazer um filme, incluo aqui não apenas Michele, mas todas as participantes, expondo estes momentos, é muito mais do que coragem, é contribuir para a efetiva emancipação feminina.

Felizmente os festivais de cinema existem e “pinçam” estas pérolas. Mas infelizmente muitos filmes, talvez a grande maioria, não chegam ao grande público por ausência de distribuição.

Aqui no Brasil, nos resta aguardar a sorte dele ser selecionado por algum festival ou esperar até que esteja disponível pela internet, lembrando que esta opção nunca nos oferecerá a qualidade da exibição na telona do cinema.

Por enquanto, a certeza de que a ousadia e a coragem são qualidades das super poderosas.

Deixo aqui o website onde é possível assistir ao trailer do filme e o da Michele, para quem queira conhecer melhor o seu trabalho.

http://myeroticbody.com

http://michelebeck.net/

By heart

Dizem que filme bom é aquele que fica em nossa cabeça por tempos depois de assisti-lo, não é?!

Alguns ficam para eternidade na nossa memória.

Mas esta é uma questão extremamente pessoal, já que a minha isca pode não ser a mesma que lhe fisga. Então, a subjetividade sempre estará presente.

Pois é, mas eu me dou o direito de expor o meu “alimento” audiovisual e exercitar a minha análise, por mais específica que seja, já que abri este espaço para expor minhas ideias.

Dia 07/05 foi o último dia do NYC Indie Film Festival.

Estive presente com a exibição de MINHA POESIA, meu primeiro filme, escreverei em breve a respeito. Assisti a tantos outros filmes e não posso deixar de destacar alguns que me ficaram na memória.

Alguns, diria, vários, mereceriam uma reflexão mais apurada. Mas, neste post selecionei apenas quatro para breves comentários extraídos de minha lembrança. São filmes que foram exibidos apenas uma vez e, por hora, não estão disponíveis ao grande público por estarem “na fase de festivais”, sendo inscritos e concorrendo em outras mostras.

São eles:

Club Angels, USA, 2016, 11 min, Andy Boyce. A diversidade se faz presente com a banda Miss Queen Sateen and Exquisite, um casal heterossexual que se veste de drag (ele e ela) e se apresenta na noite de Nova York. Baladas, fantasias, maquiagens exóticas e muita música fazem parte deste universo, sempre com cenas de carinhos entre eles.

Pool, piscina, Brasil, 2016, 29 min, Leandro Goddinho. Curta brasileiro sobre o encontro de uma moça homossexual e a amante de sua avó, relembrando fatos importantes da sua vida e da relação que tinha com ela, ressaltando o preconceito da família e o quanto ela sofreu por ter uma amante mulher. Filme feito em homenagem às vítimas homossexuais do holocausto.

Transient, USA, 2017, 99 min, Alexander Stockton. Longa sobre a vida de um imigrante ilegal do México que vai para os EUA. Sua luta diária é marcada por fugas, passando por vários momentos difíceis como a morte do pai e do avô, a busca de emprego e retorno para o México. Ele volta para os EUA e consegue uma entrevista de emprego. O diretor, que pontualmente se utiliza da linguagem de HQ, consegue em vários momentos sensibilizar o público com a sua narrativa humanista que valoriza o personagem e sua história. Um dos filmes mais emocionantes que assisti na mostra.

Backstory, Germany, 2016, 8 min, Joschka Laukeninks. Curta vencedor do festival na categoria “ficção”, revela, sempre focando o mundo pelas costas do personagem, as várias fases da vida de um garoto, desde o nascimento, pequeno até a velhice, mostrando como amamos, coisas que aprendemos, construímos, dificuldades e, por fim, tudo um dia se vai com a morte. Excelente reflexão sobre a finitude da vida.

No Brasil, nos resta esperar que eles cheguem por aqui, por festivais ou pela internet.

Aprender sempre

A experiência de participar de um festival de cinema é algo realmente motivador.
Sim, papo de principiante, mas quem não é?

Estou participando do NYC Indie Film Festival e muito feliz por comprovar que no mundo existem mulheres incríveis, batalhadoras, corajosas e felizes por realizarem filmes.

Quero pontuar dois que são realizados por mulheres e falam sobre mulheres.

O filme “Four Journeys”, 55 min, de Teresa Mular, conta a jornada de quatro imigrantes latinas que, com muito esforço, construíram suas carreiras profissionais em Nova York e vivem por aqui muito bem, obrigada.

E o “Bit Rose”, documentário de 29 minutos, dirigido por Adele Fournet, que mostra como seis produtoras musicais criam suas músicas eletrônicas em um mercado dominado por homens. Suas aspirações são expostas sem receios, assim como cada uma se posiciona diante de tanta dificuldade.

Filmes sensíveis, cada um com a sua narrativa e estética, mostrando que nós mulheres somos – ou podemos ser – extremamente competentes nas mais diversas áreas.
Independente da idade, estamos aqui, marcando nossa presença.

Isso é lindo.