Luzes e cores de Antonio Peticov

Bicicleta, 160 cm X 160 cm, 1998, tinta acrílica sobre tela

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Conheci Antonio Peticov há anos atrás, quanto eu estava produzindo um prêmio de arte e ele inscreveu a sua obra dois dias depois de encerradas as inscrições.

Eu, como produtora, recebi o trabalho, conforme orientação do curador, mas evidentemente que foi um ato apenas protocolar, já que, estando fora do prazo, não entraria na concorrência.

Mas, a inscrição tardia no concurso foi na verdade uma ótima desculpa para a gente se conhecer, realizar grandes projetos juntos e tornarmos bons amigos.

Peticov construiu uma carreira sólida com uma produção altamente diversificada, passando pela pintura, desenho, gravura, escultura e ilustração. É autor de diversas instalações em locais públicos, como o “Momento Antropofágico com Oswald de Andrade”, na estação República do metrô de São Paulo.

Outra obra de grande visibilidade é a “Torre Transburti”, localizada na Av. Paulista. Com uma altura total de 125 metros, seus anéis coloridos e iluminados é destaque na noite paulistana.

Peticov apresenta soluções para questões que ele mesmo se impõe. Tudo tem um porquê, uma explicação. Ele parte de pesquisas e faz questão de deixar este “rastro” no produto final, facilita o que está complicado. A síntese é mais uma de suas qualidades.

Em 2002, em parceria com a Unesco, desenvolvemos dois grandes projetos envolvendo os locais eleitos “Patrimônio da Humanidade no Brasil”, onde ele teria que fazer releituras destes locais a partir de imagens criadas por fotógrafos conceituados, rendendo exposições dos originais, telas em giclê, coleção de pôsteres, postais, cartões, livros, eventos, sites e uma série de outros produtos e desdobramentos para a empresa patrocinadora.

Para a primeira fase deste projeto, “Patrimônios Urbanos”, sobre as cidades brasileiras eleitas patrimônio da humanidade, para fazer “dobradinha” com Peticov, convidei Itamar Assumpção – que é um assunto a parte, pretendo falar dele em breve aqui – para compor versos sobre cada um destes locais.

Para São Luis do Maranhão, Itamar compôs:

“Atenção
Som luz câmera ação
São Luis do Maranhão”

E o Peticov, a partir de uma foto de um homem cego andando com a sua bengala, feita por Renato Soares, desenhou “Som Luz”, batizado assim, neste bate-bola com Itamar.

Me lembro que ele ainda tirou uma onda de mim. Foi me mostrar o desenho que havia acabado de fazer e deu um super grito. Fingiu um susto desesperado, reclamando que a Diana, sua cachorra, tinha “estragado” o seu desenho do cego.

Essa leveza também é uma de suas muitas qualidades.

O Salvador de Itamar virou “Sarador”. E, a partir da foto do Renato Soares, Peticov transformou as baianas em sinos e criou “A Babá Ía”.

Para Ouro Preto, Itamar fez:

“O Brasil, visto de longe é tão pobrezinho…
Mas, quanto se chega perto, são outros quinhentos
É Ouro Fino, é Ouro Verde, é Ourinhos,
é ouro branco, é ouro amarelo, é Ouro Preto”

E Peticov, agora a partir de uma foto feita por Izan Petterle, criou “Outro Preito”, aplicando um desenho do Lula no lugar da fonte de água. Homenagem?!

Assim, também foram produzidas obras sobre as outras cidades (Olinda, Congonhas, Brasília, Diamantina e Cidade de Goiás). Depois dos Patrimônios “Urbanos”, produzimos os “Naturais”, envolvendo uma série de outros fotógrafos e também a poeta Alice Ruiz. Mais obras, exposições, livro, postais, pôsteres e eventos.

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Em  2003, lançamos “Trabalhos Escolhidos – 40 anos de Antônio Peticov”, um livro composto por uma seleção de obras, com evento e exposição no Masp.

Ferreira Gullar escreveu “… a sensação que me fica, ao refletir sobre a personalidade de Antonio Peticov e sua obra tão diversa e instigante, é a de que estou diante de um artista em pleno domínio de sua técnica, maduro, e que, no entanto, mantém vivo dentro de si um menino ainda encantado com as formas e as cores do mundo.”

Jorge Mautner, em uma das apresentações, coloca que “… mesmo quando muito jovem, parecia um velho sábio”. E finaliza destacando “Sua capacidade de penetrar e absorver ideias, as mais contraditórias, faz da sua obra uma perene ressurreição da beleza e da graça divina a cada instante”.

Peticov circula com fluência junto a outras áreas culturais, em especial na música, com participações importantes no tropicalismo, influenciando compositores e grupos. Rita Lee o cita em várias oportunidades no seu livro “Uma autobiografia”, assim como, Arnaldo Batista, no documentário “Loki”. Ah, mas tem também o Gil, o Caetano, os Novos Baianos e tantos outros.

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Produção Primorosa, 2016, tinta acrílica sobre tela

Aquela entrega atrasada que ele fez para o Prêmio que eu estava produzindo nos rendeu três livros, várias exposições, eventos, produtos e, o mais importante, nossa amizade e admiração mutua.

No ano passado, nesta época, na festa de seu aniversário de 70 anos, sempre surpreendendo, ele me deu de presente a obra “Produção Primorosa”, composta por uma taça dourada com o perfil do meu rosto (lado direito da taça) e do meu marido (esquerdo), além dos livros que nos formaram e muita, muita fumaça colorida.

Não me perguntem o porquê.

Para conhecer o trabalho do querido Peti, que completa 71 anos no dia 02/07, basta mergulhar em seu site www.peticov.com.br.

Autor: Leide Jacob

Sou produtora cultural, apaixonada por cinema, literatura, artes plásticas, cênicas e música. Mas gosto do silêncio, para me ouvir. E do barulho, vez em quando, para gritar.

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