Itamar não sai do meu radar

Sampa Midnight – Isso não vai ficar assim, 1983

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Em 1989, quando voltei a morar em São Paulo, desta vez para fazer faculdade de comunicação, conheci um universo musical que me fez mudar os conceitos que tinha até então sobre a música popular brasileira.

O ouvi Itamar Assumpção e, a partir daí, passei a acompanha-lo como fã ardorosa e compulsiva.

Depois, já como produtora cultural, quando surgiu uma oportunidade interessante de desenvolvimento de um trabalho, onde o artista tivesse um alto grau de liberdade para criar, eu o convidei para compor uma dupla com o também querido Antonio Peticov.

Foi um período muito intenso e produtivo, ele já estava doente. Mas, antes de terminar a segunda fase do projeto, Itamar infelizmente faleceu.

Em 2009, fui convidada para escreve sobre o álbum “Sampa Midnight”, um dos doze que compoe o box “Caixa Preta”, lançado em 2010 pelo Sesc, com a obra completa do Itamar.

Reproduzo abaixo a apresentação que escrevi e deixo o link para o audio do álbum que não me canso de ouvir.

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Sampa Midnight  – Isso não vai ficar assim

Itamar une arquitetonicamente letras e notas, fazendo com que estes elementos se entrelacem de forma tão ampla e intensa, que a soma das partes resultam em algo além, de outra dimensão.

Sampa Midnight é assim, um cd de outra dimensão, para ser ouvido e entendido. É necessário destrinchar a sua poesia, perceber cada instrumento e seus arranjos, sentir o peso do contrabaixo, as interferências do trombone, os breques e repiques da bateria, os gritos e sussurros dos vocais e da guitarra, sem perder de foco a interpretação de Itamar.

Da primeira à última música, são arranjos em tons marcantes, pautados por letras que contam histórias dos mais variados naipes. São Paulo é lembrada diversas vezes, mas, em especial, é cenário de “Sampa Midnight”, música homônima ao cd, que conta uma noitada de três amigos embriagados.

“Prezadíssimos ouvintes” (parceria com Domingos Pellegrini), primeira música, revela o sonho do cantor que, com todas as suas dificuldades, vive em sua luta diária produzindo arte, sonhando com o sucesso de cantar na televisão.

Já “E o quico”, a última, é um passeio pela escuridão, onde o autor, fazendo questionamentos sobre a vida (afinal, que vida é esta?), se relaciona com assombração e seres de outro planeta, chegando a ser um interlocutor entre eles, mandando recados.

Dúvidas e angústias são retratadas em “Idéia Fixa”, uma marcha pautada por gritos e sustos.

A inquietude do poeta é também exposta em “Tete tentei”, com a procura de palavras, temas, estilos e notas, metaforicamente terminando por fazer “mímicas”.

“Navalha na liga” (parceria com Alice Ruiz) é uma gostosa brincadeira com rimas. Na mesma linha, mas com notas em escalas e tom provocativo, “Vamos Nessa” (parceria com Paulo Leminski).

Mostrando a efemeridade da vida, mas ressaltando toda sua beleza, em flores, cores, personagens, bichos e até filhos, “Isso não vai ficar assim” é um pedido de amor, tão intenso, como se tudo fosse acabar no próximo instante. Em contrapartida, como um presente, “Z da questão meu amor” é a sua sincera declaração à Zena, sua esposa.

“Totalmente à revelia” (parceria com Paulo Lepetit, Luiz Waack e Marlene Wolfensberger) faz questionamentos sobre o que vem depois da morte, sobre as coisas e pessoas queridas. E aí, as orquídeas são citadas.

Têm ainda as divertidas “Movido a água” (parceria com Galvão Bastos), “Desapareça Eunice”, “Cadê Inês”, “Chavão abre porta grande” (parceria com Ricardo Guará) e o instrumental “Eldorado” (de A.C. Tonelli).

Musica simples, com arranjos elaborados. Itamar faz parte do seleto grupo de compositores que realmente faz música para ouvir, sentir e pensar. Por isto ele é tão importante e sua música é tão especial.

Para entender do que estou falando, basta clicar aqui para ouvir o Sampa Midnight pelo youtube.

Leide Moreira Jacob, produtora cultural

leide@leidemoreira.com.br

PS.: Lembro-me de uma das últimas internações de Itamar, quando fiquei sabendo, liguei e disse que iria visitá-lo. Perguntei o que ele estava precisando, se queria comer algo diferente, se gostaria que eu levasse alguma coisa. Pensei, ele vai me pedir uma fruta, um doce, um livro, sei lá, qualquer coisa. Mas ele imediatamente respondeu “pode me trazer uma orquídea”. Logo entendi. Ele queria alimentar o seu espírito. Este é o Itamar Assumpção.

Autor: Leide Jacob

Sou produtora cultural, apaixonada por cinema, literatura, artes plásticas, cênicas e música. Mas gosto do silêncio, para me ouvir. E do barulho, vez em quando, para gritar.

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