O melhor e o pior da sociedade

Glory, Bulgária/Grécia, 101 min, 2016, dir. Kristina Grozeva, Petar Valchanov

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Com destaque para o relógio e todo simbolismo que ele representa, Glory faz uma caricatura da sociedade, com a polarização exacerbada do bom e mau.

Nesta segunda experiência, os diretores Kristina Grozeva e Petar Valchanov escalaram os atores Stefan Denolyubov (no papel de Tzanko Petrov, o protagonista) e Margita Gosheva (como Julia Staykova, a antagonista), que também atuaram em “A Lição” (2014), primeiro longa da parceria.

O entrosamento da equipe resultou em uma mise en scène articulada, com atores bem à vontade. Os planos, do tipo “câmera na mão”, em um estilo documental, aderem à atualidade, deixando o filme ainda mais próximo à realidade. Mas o Glory vai além da crônica. Há um exagero proposital nas situações, deixando-as cômicas, inusitadas.

Tzanko é um trabalhador ferroviário e, durante sua rotineira inspeção nos trilhos, encontra um saco de dinheiro e o entrega à polícia. A sua atitude honesta é motivo de chacota, tanto de seus conhecidos, quanto das autoridades políticas, que também o consideram um tolo. Fator potencializado por ser gago e ter dificuldades em se comunicar verbalmente.

Julia é assessora de comunicação do Ministério dos transportes e se utiliza do fato para divulgar o ministro Kanchev (Ivan Savov, que também atuou em “A Lição”, em 2014), realizando um evento para homenagear Tzanko por sua nobre atitude. Arrogante e falsa, ela retira o relógio do braço dele, uma relíquia de família, e lhe entrega o prêmio: um relógio digital, lhe deixando com a marca da ausência do objeto afetivo.

No encontro com o ministro, ele faz denúncias de roubos de combustíveis, mas é ignorado. Sozinho e sem apoio, a busca pelo relógio antigo é árdua e difícil.

Júlia, por sua vez, quer engravidar e passa por um tratamento com injeções em horários específicos. Este recorte humaniza a personagem, contrastando com sua falta de caráter.

O humor se faz presente com uma coleção de sequencias hilárias. Seja nas perseguições do marido de Júlia para lhe aplicar os remédios, ou nas trocas de roupa de Tzanko com os funcionários do Ministério do Transporte, já que ele precisava estar “apresentável” para contracenar com o ministro, a narrativa está calcada em cenas onde os personagens passam por situações, no mínimo, constrangedoras.

Destaque para a composição sonora na residência de Tzanko (edição de som de Ivan Andreev), um ambiente tão rústico, onde as moscas não aparecem, mas se fazem presentes.

Com ironia e sarcasmo, Glory escancara situações de corrupção envolvendo a administração pública na Bulgária. Não faz apenas uma caricatura daquela sociedade, nos mostra também que o estilo “tirar vantagem em tudo” não é exclusivamente brasileiro.

Glory tem estreia prevista para 14 de setembro e o seu trailer pode ser visto aqui.

Autor: Leide Jacob

Sou produtora cultural, apaixonada por cinema, literatura, artes plásticas, cênicas e música. Mas gosto do silêncio, para me ouvir. E do barulho, vez em quando, para gritar.

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