Cuba Jazz é a réplica de talento e improviso

Brasil, 85 min, 2016, dir. Max Alvim e Mauro di Deus

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Cuba habita o imaginário de todo o mundo.

Afinal, quanto ainda nos falta conhecer desta ilha que, devido ao embargo econômico dos EUA, se manteve fechada ao mundo capitalista?

As coisas estão mudando, Cuba vem passando por um processo progressivo de abertura, onde é possível conhecer com mais detalhes a sua produção cultural.

O filme Cuba Jazz, desempenha um pouco este papel. Faz um recorte musical específico no Jazz tocado na ilha pelos cubanos e revela um movimento dos músicos e produtores contemporâneos que defendem que o Jazz Cubano é um gênero, derivado do Jazz de origem Norte Americana, porém independente e diferente do que hoje se chama de Jazz Latino.

Com uma linguagem tradicional, o documentário de 85 minutos começa mostrando o Malecón, a avenida beira mar, um dos ícones da paisagem de Havana, onde é possível observar as ondas quebrando nos muros e jogando água na avenida.

Depoimentos de músicos, críticos, produtores e estudiosos locais sobre a origem do Jazz Cubano, suas influências e história, como se desenvolve, as escolas, o apoio do governo, como vivem os músicos e suas dificuldades são intercalados com cenas do cotidiano, imagens das ruas, da arquitetura, do comércio, das escolas, ressaltando os aspectos humanos e mergulhando nos costumes através de uma crônica audiovisual.

O documentário também incorpora a literatura “abrindo” as sequências em forma de capítulos, com trechos de escritores e intelectuais locais, como Nicolás Guillén, Lezama Lima e Alejo Carpentier.

Mas, por conta de seu conteúdo, sua temática, o filme, dirigido por Max Alvim e Mauro di Deus, vai além dos clichês do turismo. Ele nos revela também novas facetas da música cubana, quiçá mundial.

Marcada pelo embargo comercial, que fez da ilha literalmente uma ilha, isolando-a do mundo ocidental capitalista, Cuba se superou no que diz respeito a educação e cultura, produzindo e criando uma arte expressiva com personalidade própria.

Ironicamente, como uma resposta ao isolamento, a partir de um estilo musical de origem norte americano, os músicos cubanos recriaram um gênero próprio, o Jazz Cubano, a partir de sua realidade, com influências latinas e africanas.

A liberdade de mesclar outros elementos é explicita nos primeiros minutos do documentário com a apresentação de Yissy Garcia (& Bandancha), que se utiliza do sample para produzir Jazz com características autorais, próprias.

A produtora local Yoana Grass foi responsável pela curadoria junto aos músicos, que, como personagens, não apenas participaram do documentário, mas ajudaram em sua confecção. Essa energia é expressada pela espontaneidade dos mais de vinte depoimentos e cerca de nove apresentações musicais de Jazz.

Como opção estética e contraponto à crônica audiovisual tão colorida, as apresentações de Jazz, coração do documentário, estão destacadas em preto e branco.

Solos de bateria, duetos com piano, temas envolvendo outros instrumentos como contrabaixo, violino e percussão, demonstram que Cuba nestes últimos anos incorporou uma linguagem mais universal, mas mantem sua personalidade própria.

As interpretações de Zule Guerra (“Corcovado”, de Tom Jobim) e de Daymé Arocena (“Bésame Mucho”, de Consuelo Velázquez), que, em depoimento, afirma “inventamos nosso próprio Jazz”, são outras referências deste movimento.

Daymé, além de cantar, conta um pouco de sua história, mostrando a sua avó cozinhar, comparando metaforicamente a música a uma panela de comida onde se coloca um monte de coisas, os mais variados ingredientes, e sai alimento “rico e saboroso”. Ela pede para avó cantar enquanto cozinha.

A riqueza das cores, dos elementos visuais e sonoros, revela a alegria de um povo que tem criatividade para se virar diante de tantas dificuldades, improvisar. Como no Jazz.

O filme, que foi exibido pela primeira vez no 38° Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano em Havana, em dezembro de 2016, teve a sua estreia no Brasil em 28 de julho na praça do Memorial da América Latina, em São Paulo, durante o Festival Latino-Americano de São Paulo.

É possível assistir ao trailer aqui.

Autor: Leide Jacob

Sou produtora cultural, apaixonada por cinema, literatura, artes plásticas, cênicas e música. Mas gosto do silêncio, para me ouvir. E do barulho, vez em quando, para gritar.

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