A realidade e o sonho se embaralham

Belle de Jour, França, 100 min, 1967, Luis Buñuel

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Se cinema é imaginação, A bela da tarde é o exemplo perfeito de como uma história pode naturalmente transitar entre a realidade e o sonho, dando vazão aos mais férteis desejos sexuais.

Baseado no romance “Belle de Jour“, de 1928, de Joseph Kessel, A bela da tarde (Belle de Jour, França/Itália – 1967), dirigido por Luis Buñuel, conta a história da burguesa Séverine Serizy (Catherine Deneuve, considerada a deusa do cinema francês, “Tout nous sépare”, 2017) que, motivada por suas fantasias, e insatisfeita com o casamento, passa a se prostituir no bordel da Madame Anaïs (Geneviève Page, “Don’t worry, be happy”, 2003), onde se depara com os mais diversos tipos de clientes e situações.

Com o pretexto do sonho, lembranças ou fantasias, o roteiro que Buñuel fez em parceria com Jean-Claude Carrière, autor de vários livros, entre eles o conceituado “A linguagem secreta do cinema”, foi inovador por abordar questões até hoje consideradas tabu sobre o universo feminino, dando palco aos desejos sexuais tão perversos quanto reprimidos.

E não é à toa que Buñuel explora o inconsciente. Considerado o pai do cinema surrealista, seu primeiro filme, “Um cão andaluz” (1929), produzido em parceria com Salvador Dalí e recheado de cenas dúbias e metafóricas, é um marco histórico para o cinema experimental.

A Bela da Tarde começa mostrando o casal Séverine e Pierre (Jean Sorel, Strange Birds, 2017), em uma carruagem, ao som dos guizos (sinos) presos aos animais, a caminho de sua residência, quando ela se imagina sendo violentada pelo cocheiro a pedido de seu marido.

As cenas remetem sempre a algo além, mais pesado, mas não se chega a este ápice. São indicações que deixam claro o que acontece ou se imagina. E isso inclui violência, estupro, sadismo e até abuso de menor.

O real e o imaginário no mundo de Séverine se fundem, entre lembranças em flashbacks e fantasias sexuais.

Destaque para a edição de som de René Longuet (L`agression, 1975), que se utiliza de elementos sonoros, como os guizos na carruagem em movimento, como ícones, para se associar ao pensamento da Severine, que não são poucos.

Ao final, na sala com o marido, que está doente, imóvel em uma cadeira de rodas, Séverine escuta os sinos e observa na janela a carruagem que vem pela estrada. E, como que voltando para a realidade ou saindo dela, o marido se levanta e comenta que vai tirar 15 dias de férias para eles viajarem para as montanhas.

Esta confusão entre o real e o imaginário permeia todo o filme, tornando-o ele próprio um elemento a ser questionado. O que é real e o que é imaginação, afinal, se, ao fim, a transição se impõe, confirmando a tênue margem entre estes elementos? Teria sido tudo fruto da imaginação de Séverine?

Nestas fantasias, Séverine se coloca de forma submissa, mas a grande novidade é que ela é o sujeito pensante e não reduzida ao objeto pensado. As fantasias são frutos de sua imaginação e isso já faz uma baita diferença.

A bela da tarde consegue abalar o papel estabelecido para a mulher na sociedade burguesa, mesmo que tudo isso esteja apenas no campo dos sonhos ou imaginação. O cinema tem esta magia.

No Brasil, entrará em cartaz a cópia restaurada do filme, com tecnologia de imagem em 4K, exibida no último Festival de Cannes, em comemoração aos 50 anos de seu lançamento.

Imperdível.

Autor: Leide Jacob

Sou produtora cultural, apaixonada por cinema, literatura, artes plásticas, cênicas e música. Mas gosto do silêncio, para me ouvir. E do barulho, vez em quando, para gritar.

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