“A luta de Steve” traz dor e amor

EUA, 1h58min, 2016, dir. Clay Tweel

Anúncios

A Luta de Steve” é daqueles filmes que, para encarar, é necessário um certo preparo emocional. Primeiro porque ele mostra sem maquiagem inúmeras situações de dificuldades pelas quais um paciente de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) é obrigado a passar, desde o diagnóstico da doença e, depois, com a evolução dos sintomas. E não é nada fácil ver alguém passar perrengues. É sofrer junto. 

Seria muito limitado, se fosse só isso. Mas não. O filme traz questões que vão além do sofrer pelo adoecimento e pelas perdas, apesar da presença do intenso peso emocional.

O documentário conta a historia de Steve Gleason, ex-jogador da NFL (National Football League) e herói em Nova Orleans, que, em 2011, foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença neuro degenerativa caracterizada pela perda de força progressiva, ainda sem cura.

Seis meses após o diagnóstico, sua esposa descobre que está grávida e Steve inicia a gravação de uma série de vídeo-diários com mensagens para seu filho, Rivers, que, naquele momento, ainda viria a nascer.

Tweel, o diretor, se utiliza destas gravações para compor uma narrativa verdadeira e sincera em primeira pessoa. E este é o seu grande trunfo, já que se utiliza de uma linguagem basicamente tradicional, recheada de entrevistas, depoimentos e imagens de acervo, como jogos e programas televisivos que Steve participou, trazendo também informações sobre a doença.

Gleason_HKPull_113.jpg
Steve em uma de suas viagens de aventura

O personagem é forte, a sua rotina é intensa e cheia de momentos de lazer envolvendo esportes e viagens. Suas filmagens trazem seu sofrimento, mas também suas realizações. Ele é inteligente, não perde tempo. Em meio a tantas dificuldades, se prepara para o futuro, gravando um banco de áudio com sua voz para ser utilizada em um sistema de comunicação com o computador através do movimento ocular.

O filme aborda questões importantes, como a sua preocupação em “deixar os seus relacionamentos em ordem”, termo que utilizou para dizer “resolver suas diferenças ou mal entendidos”. Nesta proposta, ele entrevista o seu pai, confrontando-o sobre as suas cobranças, inclusive no âmbito religioso. Apesar de sempre carinhoso, ele se aprofunda, comentando das brigas dos pais, quando era criança, e da educação rígida que lhe foi imposta, na base do medo.

Gleason_HKPull_127
Steve, seu pai e seu filho

O documentário apresenta uma pesquisa que diz que 95% dos pacientes não aceitam realizar a traqueostomia, procedimento no qual se abre um orifício na traqueia do paciente para conectá-lo um respirador artificial, garantindo a entrada de oxigênio. É um recurso utilizado nos pacientes de ELA, já que, com o avanço dos sintomas, há o comprometimento dos músculos da respiração, levando à falência respiratória.

Faço aqui um parêntese de caráter pessoal. Minha mãe, que também foi diagnosticada com ELA em 2005, depois da traqueo, realizada em novembro daquele ano, através do único movimento que possui, o ocular, nestes últimos dez anos, ela criou 299 poesias e as comunicou através de uma tabela visual com apoio de suas cuidadoras. Esta produção resultou em 3 livros (Letras da minha emoção, de 2006; Poesias para me sentir viva, de 2008; e Não espere de mim apenas poesias, de 2015), 29 musicas (compostas por Nuno Mindelis, Elder Costa e Rafael Toledo) e 1 filme documentário (Minha poesia, de 2016, dirigido por mim). Sim, a sua história é forte e não tenho dúvidas de que ela, assim como Steve, faz a diferença neste “mundo-cão”.

Fiz este depoimento para enfatizar que a vida não acaba com a traqueo. Ela muda, ressignifica-se. E isso acontece a todo momento, não é?

Gleason_HKPull_213
Steve se comunicando através do movimento ocular

“Tenho certeza que há pessoas que recebem este diagnóstico e desistem completamente, enquanto em mim, acendeu um fogo. Não vou desistir. Irei além, um pouco além do limite.”, disse Steve em um de seus depoimentos, quando descobriu que estava doente. Engajado, participa ativamente de campanhas sociais e políticas por melhores condições para os pacientes com ELA.

Ele consegue muito, inclusive reverter investimentos que o governo dos EUA havia cortado e que, depois, devido ao seu ativismo, virou lei sancionada pelo presidente Obama, beneficiando os pacientes em mesma situação. Todo este engajamento político é retratado no documentário.

“A Luta de Steve”, que, em 2016, ganhou o Prêmio do Público no SXSW Film Festival e concorreu ao Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance, estreia em 13 de julho nos cinemas.

É possível ver o trailer aqui.

Autor: Leide Jacob

Sou produtora cultural, apaixonada por cinema, literatura, artes plásticas, cênicas e música. Mas gosto do silêncio, para me ouvir. E do barulho, vez em quando, para gritar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s