Como os nossos pais

Mais que exemplos, a cumplicidade é um passo além na educação dos filhos

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A gente aprende por osmose mesmo.

Essa coisa de DNA ok, é verdadeira, funciona, tá comprovado, não tem o que ser questionado. Mas quando se trata de comportamento, jeito ou modo de pensar, a convivência apita alto.

Algo invisível acontece, parece que tá no ar, nas entrelinhas, subentendido, um código que ninguém ensinou, mas todos entendem. Assim que a gente aprende com os pais, com quem nos cuida e por osmose nos ensina.

Nos anos 70, qdo garota, antes dos meus dez anos, morávamos em São Paulo e viajávamos muito para Franca e Ituverava, cidades do interior norte do estado de SP, onde meus pais nasceram e meus avós moravam.

As viagens eram noturnas e, em uma época marcante p mim, tínhamos uma belina, aquele veículo antigo da Ford, com um porta malas enorme aberto por dentro, que, deitando os bancos de trás, ainda ficava maior.

Meus pais, sempre loucos, em uma época em que não se usava cinto de segurança e era permitido fumar em qualquer lugar, inclusive em locais fechados como avião, colocavam colchões lá atrás, no porta malas da belina, onde eu e meus dois irmãos viajávamos com todo conforto para dormir. E era um rinque para brigar.

Durante as viagens, eles conversavam sobre tudo, mas, em especial, política. Metiam o pau na ditadura ao som do Geraldo Vandré. Contavam que amigos tinham sumido, falavam sobre o que a polícia estava fazendo. Comentavam sobre as músicas e seus autores.

Muita MPB, com Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina, Maria Bethania e tantos outros. Eu cantava e olhava para o céu, procurando o Cruzeiro do Sul e as Três Marias. Sabia de cor o discurso do Caetano Veloso, com “Proibido Proibir”, apresentado no festival da canção de 68. “O júri é muito simpático, mas é incompetente”, virou bordão entre eu e meu irmão mais velho.

Nas passagens pelos pedágios, desligavam o som e faziam cara de sérios. Trezentos metros depois, colocam o som ainda mais alto. E ai todos cantavam juntos, felizes, como se tivéssemos ganhado um prêmio. Uma farra para mim.

Eu ficava entusiasmada por participar do “mal feito”, por ouvir músicas de autores perseguidos pela ditadura, e mais, por fingir que estava dormindo nos pedágios e depois de alguns metros me esbaldar, tirando a maior onda cantando a música.

Coisa de esquerda festiva mesmo. Sabia que éramos diferentes dos outros, da maioria dos nossos amigos.

Meu pai, que faleceu em 1998, era o mais em tudo, exagerado ao extremo, era daquele que tira um sarro ou faz piada em qualquer situação. Me ensinou a dirigir aos 14 anos e me emprestava o carro para dar umas voltinhas, era só pedir. Fofo e sempre do “sim”. Imagine se eu não o amava? Mas maluco, eu sei.

Eu tenho um baita orgulho deles por suas posições políticas. Mas também por essa loucura boa, o modo de pensar diferente, os exemplos, os “mal feitos” que são todos “do bem”, as arapucas e apertos, a liberdade e a felicidade sem tamanho.

E mais, essa coisa de participar e “aprontar” juntos, essa cumplicidade familiar é o melhor de tudo. Osmose pura.

Ah, falando nisso, #foratemer e #diretasjá.

Autor: Leide Jacob

Sou produtora cultural, apaixonada por cinema, literatura, artes plásticas, cênicas e música. Mas gosto do silêncio, para me ouvir. E do barulho, vez em quando, para gritar.

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