A mentira também pode salvar

Os meninos que enganavam nazistas, 110 min, 2017, dir. Christian Duguay

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Narrado em primeira pessoa por um dos garotos, Joseph, o mais novo, o longa de 110 minutos, conta a saga de dois irmãos, de 10 e 12 anos, que precisam fugir para Itália e fingir que não são judeus para enganar os nazistas que estavam invadindo Paris, durante a segunda guerra mundial.

A história, real e autobiográfica, foi adaptada ao cinema e dirigida por Christian Duguay (Vermelho Brasil, 2014) a partir do romance homônimo que Joseph Joffo escreveu e lançou na década de 70. Esta é a segunda adaptação para o cinema. A primeira foi em 1975, dirigida por Jacques Doillon (A Bag of Marbles).

Duguay – que em 2003 produziu e dirigiu a mini série para TV “Hitler: The Rise of Evil”, abordando a biografia do ditador, o nazismo e a segunda guerra – retoma esta ambientação com “Os meninos que enganavam nazistas”, porém agora sob uma ótica humanista. A narrativa se inicia em maio de 1942. Logo nos primeiros planos do filme, em uma edificação de Paris, lê-se “Liberté, Egalité, Fraternité” (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) – lema da Revolução Francesa – quase que como um contraponto às dificuldades que viriam a acontecer nas próximas sequências.

O menino Joseph (Dorian Le Clech) é filho de um barbeiro que tem o seu salão frequentado por judeus. Em um primeiro momento, quando dois oficiais do exército nazista entram para cortar seus cabelos, ele os atende e diz, todo orgulhoso, que dentro de seu estabelecimento só tem judeus. O clima fica tenso.

Ele valoriza esta honestidade para os filhos, comentando com a família o episódio. Mas, quando percebe que os alemães estão chegando e capturando os judeus, orienta seus dois filhos mais novos a mentir e nunca dizer a sua religião, mesmo se apanharem por isso. Justifica-se dizendo ser as circunstâncias.

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Ensina na marra, simulando um interrogatório. Pergunta ao filho se ele é judeu e bate em seu rosto. Repete algumas vezes até o filho gritar que não é judeu. Se abraçam e diz: “É melhor tomar um tapa que machuca do que perder a vida por medo de tomar um”. Os garotos saem para viagem. Os pais os observam da janela. Todos choram.

A fotografia valoriza as paisagens, com planos abertos mostrando os personagens em deslocamento. Cenas com alto teor emocional, momentos que se alternam entre os limites da dor e da felicidade. Fugas e escapes daqueles que só por muita sorte, diante de tantos judeus sofrendo violências físicas e psicológicas.

Já no primeiro trem que pegam, antes de chegarem ao destino, são abordados por nazistas e salvos por um padre que mentiu dizendo que os garotos estavam viajando com ele.

“Obrigado por mentir”, diz o mais velho ao padre.

E assim a trama se desenrola com muitas emboscadas e mentiras. O otimismo se apresenta nestes limites. Nos momentos de stresse, entre os personagens, sempre presente algum diálogo que remete à esperança ou à luta, a não desistência.

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Outro destaque são as atitudes dos irmãos em meio às dificuldades, protegendo-se mutuamente. Eles aprendem a se defender e se integram nas milícias (organizações de judeus que viviam se escondendo) com suas comunicações dissimuladas.

O tempo passa e a vida deles se constrói entre fugas e reuniões com a família, em vários locais diferentes.

Em um dos encontros, o pai se assusta ao ver o filho machucado. Joseph repete o seu ensinamento, dizendo “É melhor tomar um tapa que machuca do que perder a vida por medo de tomar um”, mostrando que aprendeu direitinho.

Recheado de momentos tensos e soluções inesperadas, “Os meninos que enganavam nazistas” vai agradar aqueles que buscam um filme “enquadrado”, com polarizações entre o bem e o mal.

O filme estreou no Brasil em 03 de agosto. E o seu trailer pode ser visto aqui.

Autor: Leide Jacob

Sou produtora cultural, apaixonada por cinema, literatura, artes plásticas, cênicas e música. Mas gosto do silêncio, para me ouvir. E do barulho, vez em quando, para gritar.

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