Um filme sobre memória e seus abismos

Yvone Kane, Por/Moçambique, 117 min, 2014, Margarida Cardoso

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Em tom ficcional, o filme Yvone Kane, dirigido por Margarida Cardoso (“Sob o olhar silencioso”, 2012), expõe o relacionamento de mãe e filha, pautado por uma narrativa de constantes perdas e buscas, em meio a questões históricas, como colonialismo e guerras civis.

Rita (Beatriz Batarda, “A Costa dos murmúrios”, de Margarida Cardoso), após a morte trágica de sua filha, volta à África para encontrar a mãe, Sara (Irene Ravache, “Passione”), que, quando jovem, foi guerrilheira e ativista política, junto com a amiga Yvone Kane (Mina Andala, “Peregrinação”), assassinada em condições nunca esclarecidas.

Durante sua estada na África, Rita está à procura de respostas e questiona a mãe sobre a distância que ela faz questão de ter dos filhos. “Você mandou os filhos para Londres e nunca mais os buscou”.

Sara é fria e a recebe no aeroporto com um abraço seco. Ela é médica e atende a população local em um convento de freiras, onde é vista como uma pessoa arrogante.

Filmado em Portugal e Moçambique, Yvone Kane traz mulheres como personagens principais, dando foco em suas relações. Como pano de fundo, a política, a família e a violência, com destaque para um estupro no convento das freiras, onde um dos envolvidos é o filho adotivo de Sara, Jaime (Herman Jeusse).

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Janelas, vidros e imagens refletidas remetem a momentos introspectivos, recheados de ambiguidades. As lacunas das relações familiares deixam constante mistério, mas também fornece munição e elementos para buscas.

Rita descobre que sua mãe está doente. Porém, com interesse em desvendar sobre a morte de Yvone Kane, viaja e não está presente quando ela falece. As perdas importantes de sua vida marcam o início e o fim. O elo é o resgate da memória, seus abismos e angústias.

Face a densidade psicológica dos demais personagens, a verdadeira história sobre a morte de Yvone Kane, homônima ao filme, fica em segundo plano.

Yvone Kane já está em cartaz e o seu trailer pode ser visto aqui.

Autor: Leide Jacob

Sou produtora cultural, apaixonada por cinema, literatura, artes plásticas, cênicas e música. Mas gosto do silêncio, para me ouvir. E do barulho, vez em quando, para gritar.

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